O QUE SÃO MOVIMENTOS SOCIAIS?
Pedro Ibarra (2000)
Resumo:
INTRODUÇÃO
Este anuário de movimentos sociais enfoca experiências concretas, por isso é necessário começar com algumas reflexões gerais
sobre os movimentos sociais: o que são, por que surgem, como evoluem e como se diferenciam de outras formas de ação coletiva?
É importante que o leitor entenda que os movimentos sociais são uma forma específica de um grupo de pessoas se unir para
reivindicar seus direitos.
Em vez de definir a priori o que é um movimento, é mais útil descrevê-lo refletindo sobre as deficiências, frustrações e negações
que o originam. Um movimento social surge como resposta a:
1. Tensões estruturais (trabalho, família, urbano) que geram violações de interesses concretos e sentidos.
2. Deficiências organizacionais onde formas pré-existentes não podem, não sabem como resolver ou não querem resolver esses
conflitos.
3. Insatisfação de certas pessoas com a forma como vivem e como as injustiças são tratadas, preferindo soluções participativa s,
igualitárias e cooperativas.
Assim, os movimentos sociais não buscam apenas resolver problemas específicos, mas também prefiguram o mundo que desejam
estabelecer por meio de sua ação coletiva.
A REFLEXÃO ACIMA IMPLICA DUAS COISAS:
Um movimento busca e pratica uma identidade coletiva; supõe que um grupo de pessoas queira viver junto uma forma diferente
de ver, ser e agir no mundo. Embora a intensidade dessa experiência possa variar, ela deve existir para que possamos falar de um
movimento social. Um movimento social não é simplesmente um escritório onde as pessoas resolvem problemas individuais; deve
haver um mínimo de significado compartilhado, uma maneira comum de interpretar e viver a realidade.
Um movimento surge como resposta a carências valorativas e ideológicas e adota essa forma de identidade, uma alternativa às
convencionais e dominantes de adaptação ao mundo. Isso acontece porque existem redes de solidariedade pré-existentes, pessoas
com experiência solidária ou com uma memória/ideologia que acredita na possibilidade de fazer e ver as coisas de forma diferente.
AS CONDIÇÕES E CONTEXTOS DA EMERGÊNCIA
Em suma, um movimento começa e se consolida porque há pessoas dispostas a fazê-lo, porque essas pessoas têm uma maneira
especial de ver a realidade e querer transformá-la e porque há condições para sua implementação. Vamos analisar tudo isso com
mais detalhes.
DO DESCONTENTAMENTO À AÇÃO
Queremos entender por que algumas pessoas escolhem a forma de um movimento social para reivindicar seus direitos em vez de
um grupo de pressão ou um partido político. Queremos saber por que certos conflitos ocorrem por meio dos movimentos sociais
e quais são os contextos favoráveis que permitem que esses movimentos sejam iniciados e mantidos.
Um indivíduo decide participar na medida em que se sente imerso em um conjunto de estruturas culturais de ação coletiva. Esse s
referenciais, que inspiram e legitimam as ações dos movimentos sociais, são elaborados por meio de um duplo processo: a
"objetivação" dos quadros coletivos e a construção de quadros individuais ou grupais a partir deles.
Os três traços que impulsionam a decisão de mobilização são: sentir que algo injusto está acontecendo e que há alguém para
culpar; sentir que essa injustiça atinge um grupo com o qual se identifica; e acreditar que é possível superar essa injustiça
coletivamente. Esse sentimento de injustiça pode surgir da desigualdade ilegítima do grupo, de danos ou queixas coletivas
inesperadas e da violação de valores compartilhados.
1
Feito por MatyBuda
, Os incentivos para passar do descontentamento à ação são divididos em dois grupos: coletivos e seletivos. Os incentivos coletivos
motivam o indivíduo a participar, pois acredita que sua participação é necessária para alcançar bens coletivos relevantes. Os
incentivos seletivos oferecem vantagens específicas, como o uso de instalações exclusivas para membros ou o reconhecimento
social.
A decisão de participar com base em interesses coletivos não se reduz a um cálculo de custos e benefícios, mas é influenciada por
fatores sociais, promessas e pressões compartilhadas. As pessoas têm consciência de que, para obter um bem coletivo, é
necessário que muitos participem, e é por isso que escolhem se envolver em um movimento social e garantir que outros também
o façam.
PERFIL DO ATIVISTA
Interessa-nos destacar que indivíduos com interesses coletivos "gratuitos" tendem a aderir ou fundar movimentos sociais. Esses
indivíduos sentem-se solidários com a injustiça e acreditam que a mobilização coletiva é a única forma de eliminá-la. Essa
sensibilidade social pode surgir da socialização dissidente, de experiências de deficiências estruturais ou da vivência em
comunidades fechadas.
Geralmente, essa sensibilidade é desenvolvida por meio de práticas prévias em redes de solidariedade. Os movimentos sociais
nascem de redes sociais pré-existentes, sendo uma confluência dessas redes. Os indivíduos mais ativos e potenciais líderes
ingressam em movimentos sociais por causa de suas experiências anteriores nessas redes.
Esses indivíduos preferem os movimentos sociais a pressionar grupos ou partidos políticos porque querem construir uma
identidade coletiva baseada na confiança mútua, valores compartilhados e solidariedade. Consideram mais eficaz reivindicar
interesses e valores em conjunto com os outros e têm experiências anteriores de solidariedade identitária que sustentam o seu
compromisso.
FONTES ESTRUTURAIS
Indivíduos que formam ou aderem a um movimento social tendem a ser diferentes daqueles que se juntam a um grupo de pressão.
No entanto, isso não explica por que certas tensões, queixas e privações são expressas por meio dos movimentos sociais. Essa
expressão se deve a três condições estruturais pré-existentes, que ainda hoje permitem o surgimento de movimentos sociais novos
ou reciclados:
1. Diferenciação e especialização da modernidade: A modernidade gera fraturas nas estruturas e funções sociais, criando novos
campos de conflito que os movimentos sociais podem ocupar. Sua capacidade de informalidade organizacional e métodos não
convencionais lhes permite canalizar essas tensões emergentes. Por exemplo, a crise da família alimentou o ressurgimento do
movimento feminista, e a radicalização do desenvolvimento industrial fomentou o movimento ambientalista.
2. Desenvolvimento da pós-modernidade: Esse desenvolvimento expulsa um número crescente de indivíduos de espaços estáveis
de referência, como o trabalho permanente. Esses indivíduos precisam se organizar em redes de solidariedade para sobreviver,
redes que depois apoiam os movimentos sociais.
3. Audiência midiática e limitações de partidos e grupos de pressão: Os movimentos sociais, com suas práticas flexíveis, recebem
mais atenção da mídia do que as rotinas de partidos ou grupos de interesse. Os partidos políticos, devido às suas burocracias lentas
e à necessidade eleitoral de não se desviarem dos interesses gerais, são incapazes de enfrentar esses novos desequilíbrios e
tensões. Os grupos de pressão também encontram dificuldades para enfrentar esses desafios devido à natureza difusa dos
beneficiários dessas demandas.
Essas condições estruturais explicam por que os movimentos sociais continuam a surgir e se adaptar às novas circunstâncias.
OS CONTEXTOS
Para que um movimento social surja, são necessários indivíduos especiais e crises estruturais específicas para alimentar seu
surgimento. Além disso, o movimento deve ter recursos adequados, tanto materiais quanto organizacionais. No entanto, isso não
é suficiente. Um contexto favorável para o seu surgimento também é crucial. Sem esse contexto, o movimento pode permanecer
em uma fase inicial sem capacidade real de mobilização e, eventualmente, desaparecer.
Há dois contextos fundamentais a serem considerados: a estrutura de oportunidades políticas e os quadros culturais. Em termos
políticos, é crucial observar variáveis como a abertura das instituições políticas às demandas sociais, a capacidade das instituições
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Feito por MatyBuda
Pedro Ibarra (2000)
Resumo:
INTRODUÇÃO
Este anuário de movimentos sociais enfoca experiências concretas, por isso é necessário começar com algumas reflexões gerais
sobre os movimentos sociais: o que são, por que surgem, como evoluem e como se diferenciam de outras formas de ação coletiva?
É importante que o leitor entenda que os movimentos sociais são uma forma específica de um grupo de pessoas se unir para
reivindicar seus direitos.
Em vez de definir a priori o que é um movimento, é mais útil descrevê-lo refletindo sobre as deficiências, frustrações e negações
que o originam. Um movimento social surge como resposta a:
1. Tensões estruturais (trabalho, família, urbano) que geram violações de interesses concretos e sentidos.
2. Deficiências organizacionais onde formas pré-existentes não podem, não sabem como resolver ou não querem resolver esses
conflitos.
3. Insatisfação de certas pessoas com a forma como vivem e como as injustiças são tratadas, preferindo soluções participativa s,
igualitárias e cooperativas.
Assim, os movimentos sociais não buscam apenas resolver problemas específicos, mas também prefiguram o mundo que desejam
estabelecer por meio de sua ação coletiva.
A REFLEXÃO ACIMA IMPLICA DUAS COISAS:
Um movimento busca e pratica uma identidade coletiva; supõe que um grupo de pessoas queira viver junto uma forma diferente
de ver, ser e agir no mundo. Embora a intensidade dessa experiência possa variar, ela deve existir para que possamos falar de um
movimento social. Um movimento social não é simplesmente um escritório onde as pessoas resolvem problemas individuais; deve
haver um mínimo de significado compartilhado, uma maneira comum de interpretar e viver a realidade.
Um movimento surge como resposta a carências valorativas e ideológicas e adota essa forma de identidade, uma alternativa às
convencionais e dominantes de adaptação ao mundo. Isso acontece porque existem redes de solidariedade pré-existentes, pessoas
com experiência solidária ou com uma memória/ideologia que acredita na possibilidade de fazer e ver as coisas de forma diferente.
AS CONDIÇÕES E CONTEXTOS DA EMERGÊNCIA
Em suma, um movimento começa e se consolida porque há pessoas dispostas a fazê-lo, porque essas pessoas têm uma maneira
especial de ver a realidade e querer transformá-la e porque há condições para sua implementação. Vamos analisar tudo isso com
mais detalhes.
DO DESCONTENTAMENTO À AÇÃO
Queremos entender por que algumas pessoas escolhem a forma de um movimento social para reivindicar seus direitos em vez de
um grupo de pressão ou um partido político. Queremos saber por que certos conflitos ocorrem por meio dos movimentos sociais
e quais são os contextos favoráveis que permitem que esses movimentos sejam iniciados e mantidos.
Um indivíduo decide participar na medida em que se sente imerso em um conjunto de estruturas culturais de ação coletiva. Esse s
referenciais, que inspiram e legitimam as ações dos movimentos sociais, são elaborados por meio de um duplo processo: a
"objetivação" dos quadros coletivos e a construção de quadros individuais ou grupais a partir deles.
Os três traços que impulsionam a decisão de mobilização são: sentir que algo injusto está acontecendo e que há alguém para
culpar; sentir que essa injustiça atinge um grupo com o qual se identifica; e acreditar que é possível superar essa injustiça
coletivamente. Esse sentimento de injustiça pode surgir da desigualdade ilegítima do grupo, de danos ou queixas coletivas
inesperadas e da violação de valores compartilhados.
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Feito por MatyBuda
, Os incentivos para passar do descontentamento à ação são divididos em dois grupos: coletivos e seletivos. Os incentivos coletivos
motivam o indivíduo a participar, pois acredita que sua participação é necessária para alcançar bens coletivos relevantes. Os
incentivos seletivos oferecem vantagens específicas, como o uso de instalações exclusivas para membros ou o reconhecimento
social.
A decisão de participar com base em interesses coletivos não se reduz a um cálculo de custos e benefícios, mas é influenciada por
fatores sociais, promessas e pressões compartilhadas. As pessoas têm consciência de que, para obter um bem coletivo, é
necessário que muitos participem, e é por isso que escolhem se envolver em um movimento social e garantir que outros também
o façam.
PERFIL DO ATIVISTA
Interessa-nos destacar que indivíduos com interesses coletivos "gratuitos" tendem a aderir ou fundar movimentos sociais. Esses
indivíduos sentem-se solidários com a injustiça e acreditam que a mobilização coletiva é a única forma de eliminá-la. Essa
sensibilidade social pode surgir da socialização dissidente, de experiências de deficiências estruturais ou da vivência em
comunidades fechadas.
Geralmente, essa sensibilidade é desenvolvida por meio de práticas prévias em redes de solidariedade. Os movimentos sociais
nascem de redes sociais pré-existentes, sendo uma confluência dessas redes. Os indivíduos mais ativos e potenciais líderes
ingressam em movimentos sociais por causa de suas experiências anteriores nessas redes.
Esses indivíduos preferem os movimentos sociais a pressionar grupos ou partidos políticos porque querem construir uma
identidade coletiva baseada na confiança mútua, valores compartilhados e solidariedade. Consideram mais eficaz reivindicar
interesses e valores em conjunto com os outros e têm experiências anteriores de solidariedade identitária que sustentam o seu
compromisso.
FONTES ESTRUTURAIS
Indivíduos que formam ou aderem a um movimento social tendem a ser diferentes daqueles que se juntam a um grupo de pressão.
No entanto, isso não explica por que certas tensões, queixas e privações são expressas por meio dos movimentos sociais. Essa
expressão se deve a três condições estruturais pré-existentes, que ainda hoje permitem o surgimento de movimentos sociais novos
ou reciclados:
1. Diferenciação e especialização da modernidade: A modernidade gera fraturas nas estruturas e funções sociais, criando novos
campos de conflito que os movimentos sociais podem ocupar. Sua capacidade de informalidade organizacional e métodos não
convencionais lhes permite canalizar essas tensões emergentes. Por exemplo, a crise da família alimentou o ressurgimento do
movimento feminista, e a radicalização do desenvolvimento industrial fomentou o movimento ambientalista.
2. Desenvolvimento da pós-modernidade: Esse desenvolvimento expulsa um número crescente de indivíduos de espaços estáveis
de referência, como o trabalho permanente. Esses indivíduos precisam se organizar em redes de solidariedade para sobreviver,
redes que depois apoiam os movimentos sociais.
3. Audiência midiática e limitações de partidos e grupos de pressão: Os movimentos sociais, com suas práticas flexíveis, recebem
mais atenção da mídia do que as rotinas de partidos ou grupos de interesse. Os partidos políticos, devido às suas burocracias lentas
e à necessidade eleitoral de não se desviarem dos interesses gerais, são incapazes de enfrentar esses novos desequilíbrios e
tensões. Os grupos de pressão também encontram dificuldades para enfrentar esses desafios devido à natureza difusa dos
beneficiários dessas demandas.
Essas condições estruturais explicam por que os movimentos sociais continuam a surgir e se adaptar às novas circunstâncias.
OS CONTEXTOS
Para que um movimento social surja, são necessários indivíduos especiais e crises estruturais específicas para alimentar seu
surgimento. Além disso, o movimento deve ter recursos adequados, tanto materiais quanto organizacionais. No entanto, isso não
é suficiente. Um contexto favorável para o seu surgimento também é crucial. Sem esse contexto, o movimento pode permanecer
em uma fase inicial sem capacidade real de mobilização e, eventualmente, desaparecer.
Há dois contextos fundamentais a serem considerados: a estrutura de oportunidades políticas e os quadros culturais. Em termos
políticos, é crucial observar variáveis como a abertura das instituições políticas às demandas sociais, a capacidade das instituições
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Feito por MatyBuda