MEMÓRIA COLETIVA E SOCIAL
Darío Páez - Elza Techio - José Marques - Carlos Martin Beristain (2007)
Resumo:
DEFINIÇÃO DE MEMÓRIA COLETIVA
A memória coletiva refere-se às representações do passado que um grupo cria, preserva, elabora e transmite entre seus membros
(Jedlowski, 2000). Não apenas registra os vestígios do passado no presente, mas também envolve o que é construído
especificamente para ser passado às gerações futuras. As tecnologias atuais possibilitam registrar e preservar esses vestígios de
forma mais extensa, mas também mais fragmentada e circunstancial, facilitando também uma maior elaboração de memórias e
novas dinâmicas de memória e esquecimento, que são influenciadas por estruturas de poder.
No entanto, a atividade reconstrutiva da memória tem limites, evidenciados na pluralidade de memórias coletivas dentro de uma
sociedade e na historiografia (Rosa, Belleli, & Bakhurst, 2000; Jedlowski, 2000). Por exemplo, a maioria dos entrevistados es panhóis
na década de 1990 mencionou a Guerra Civil Espanhola como um evento coletivo significativo, independentemente de sua posição
política ou geração (Valencia e Páez, 1999).
As memórias coletivas não são apenas representações, mas também atitudes práticas, cognitivas e afetivas que automaticamente
prolongam experiências passadas no presente, como hábitos de memória. Esses hábitos sociais, que conectam passado e presente,
são costumes que constituem a continuidade social, entrelaçados com significados, valores e narrativas que lhes conferem certo
automatismo.
A MEMÓRIA COMO PROCESSO COLETIVO
A memória coletiva é um fenômeno complexo que vai além do simples acúmulo de memórias individuais. Refere-se a como grupos,
sejam familiares, étnicos ou nacionais, interagem para lembrar e transmitir experiências do passado. Esse processo não só
influencia como os indivíduos se lembram de eventos históricos ou culturais, mas também molda suas atitudes e percepções
atuais.
Do ponto de vista metateórico, a memória coletiva opõe-se ao individualismo metodológico, que tende a reduzir os processos
psicossociais a decisões racionais e ações individuais. A memória coletiva, por sua vez, reconhece a existência de construçõe s
sociais que emergem das interações grupais e das instituições compartilhadas. Essas construções vão desde objetos semióticos,
como monumentos e obras de arte, até práticas sociais cotidianas, como rituais familiares ou comemorações públicas.
Um aspecto fundamental é que a memória coletiva não se limita ao âmbito interno da mente individual. É um processo socialment e
distribuído, onde informações e memórias são compartilhadas e construídas coletivamente. Por exemplo, dentro de uma família,
diferentes membros podem se lembrar e complementar em suas memórias de eventos passados, configurando uma memória
familiar compartilhada e em constante evolução.
Além disso, a memória coletiva tem efeitos que transcendem o individual. Esses efeitos podem se manifestar em normas sociais,
atitudes coletivas ou mesmo no esquecimento de certos eventos traumáticos que são considerados tabus dentro de um grupo. A
forma como um grupo se lembra de sua história não afeta apenas a identidade coletiva, mas também influencia as percepções e
comportamentos individuais dentro desse grupo.
Portanto, falar de memória coletiva implica considerar não apenas as memórias em si, mas também como essas memórias são
construídas, transmitidas e interpretadas em contextos sociais mais amplos. É um processo dinâmico e em constante mudança,
influenciado por fatores culturais, históricos e sociais que moldam a maneira como grupos e sociedades entendem e negociam
seu passado comum.
PROCESSOS SOCIAIS DA MEMÓRIA: ATUALIDADE DOS POSTULADOS DE HALBWACHS
O trabalho clássico de Halbwachs sobre memória coletiva enfatiza que a memória é inerentemente social e construtiva. Segundo
sua perspectiva, os processos sociais são cruciais para a formação e manutenção da memória, destacando três aspectos principais.
Em primeiro lugar, os conteúdos da memória estão sempre imbuídos de interações sociais, refletindo um passado vivido
intersubjetivamente com os outros.
Em segundo lugar, a memória depende de estruturas sociais, como rituais e eventos, que funcionam como pontos de referência
para recordar eventos específicos.
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Feito por MatyBuda
, Terceiro, a memória é compartilhada e coconstruída por meio da linguagem e da comunicação, sendo um ato público que tem
funções sociais significativas.
Esses princípios ressaltam como nossas experiências passadas são integradas e moldadas por nossa interação contínua com outras
pessoas na sociedade.
A COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL E A REEVOCAÇÃO PELOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA
Pesquisas indicam que a lembrança pública, como falar frequentemente sobre eventos pessoais ou coletivos, está intimamente
ligada à vivacidade das memórias e à memória de eventos importantes. Por exemplo, o atentado de 11 de março de 2003 em
Madri, conhecido como "11-M", é lembrado mais intensamente quando é discutido publicamente. Essa conexão está relacionada
à ativação emocional que esses eventos despertam, o que, por sua vez, impulsiona a necessidade de comunicá-los ou se expor à
mídia.
A expressão emocional gera processos cognitivos e interpessoais, como ruminação e compartilhamento social, comuns em eventos
pessoais e coletivos. Esta partilha social, definida como a recordação de experiências emocionais com os outros, tem um impacto
significativo na memória e na forma como os acontecimentos são processados.
A comunicação e o compartilhamento social são cruciais para a manutenção da memória coletiva. Por exemplo, no caso da Guerra
Civil Espanhola, aqueles que falam mais sobre ela tendem a ter maior conhecimento. Isso corrobora a ideia de Halbwachs do pap el
central da atividade social na memória.
No entanto, o compartilhamento social e a ruminação também podem intensificar as emoções negativas associadas a eventos
traumáticos, o que, por sua vez, pode polarizar as atitudes em relação à sociedade passada e atual. Esses efeitos podem variar
dependendo da cultura e do tempo decorrido desde o evento traumático.
Em suma, a forma como falamos e refletimos sobre eventos traumáticos, seja a nível individual ou coletivo, tem um impacto
significativo na nossa memória e na forma como percebemos a nossa sociedade.
IDENTIDADE COLETIVA E FUNÇÕES SOCIAIS DAS MEMÓRIAS
Halbwachs argumenta que a memória é social por causa de suas funções. Ao nos juntarmos a um grupo, abraçamos e
internalizamos suas tradições e representações compartilhadas, o que envolve compartilhar a memória coletiva do grupo. Isso
contribui para a nossa identificação social tanto individualmente quanto em grupo. A memória coletiva nos leva a reter aspectos
fundamentais para a identidade social de determinados eventos, bem como a adaptar a imagem do passado às necessidades atuais
do grupo, construindo assim uma imagem positiva do passado.
Em relação à retenção de fatos do passado coletivo, pesquisas sobre memórias flash têm mostrado a influência do pertencimento
grupal na memória. Por exemplo, eventos centrais para a identidade social e política nacional são lembrados mais vividamente.
Essa tendência se reflete em casos como o assassinato de importantes líderes políticos e a renúncia de figuras proeminentes, onde
as memórias são mais claras naqueles que compartilham a mesma identidade social.
Em suma, a memória coletiva desempenha um papel crucial na construção e manutenção da identidade social, tanto
individualmente como em grupo.
A FUNÇÃO GLOBAL
A função nostálgica da memória coletiva se reflete na percepção de que a sociedade do passado foi uma "Era de Ouro", fornecendo
uma imagem positiva e estável sobre a qual acrescentar novos elementos. Essa nostalgia, muitas vezes, idealiza aspectos como a
coesão familiar e a percepção da seguridade social. No entanto, a pesquisa histórica tem desafiado esses mitos, mostrando que
algumas percepções, como a existência de famílias trigeracionais na América do Norte, são exageradas.
Além disso, estudos como o de Schuman e Scott (1989) sobre a memória da Segunda Guerra Mundial destacam como as gerações
posteriores idealizam e reinterpretam eventos históricos passados. Por exemplo, aqueles que viveram a Guerra do Vietnã na
década de 1960 mostram uma visão mais positiva e vitoriosa da Segunda Guerra Mundial do que seus próprios contemporâneos
da época. Essa reinterpretação histórica ilustra a função nostálgica da memória coletiva, onde se idealiza um passado percebi do
como menos conflituoso e mais heroico em relação às realidades contemporâneas.
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Feito por MatyBuda
Darío Páez - Elza Techio - José Marques - Carlos Martin Beristain (2007)
Resumo:
DEFINIÇÃO DE MEMÓRIA COLETIVA
A memória coletiva refere-se às representações do passado que um grupo cria, preserva, elabora e transmite entre seus membros
(Jedlowski, 2000). Não apenas registra os vestígios do passado no presente, mas também envolve o que é construído
especificamente para ser passado às gerações futuras. As tecnologias atuais possibilitam registrar e preservar esses vestígios de
forma mais extensa, mas também mais fragmentada e circunstancial, facilitando também uma maior elaboração de memórias e
novas dinâmicas de memória e esquecimento, que são influenciadas por estruturas de poder.
No entanto, a atividade reconstrutiva da memória tem limites, evidenciados na pluralidade de memórias coletivas dentro de uma
sociedade e na historiografia (Rosa, Belleli, & Bakhurst, 2000; Jedlowski, 2000). Por exemplo, a maioria dos entrevistados es panhóis
na década de 1990 mencionou a Guerra Civil Espanhola como um evento coletivo significativo, independentemente de sua posição
política ou geração (Valencia e Páez, 1999).
As memórias coletivas não são apenas representações, mas também atitudes práticas, cognitivas e afetivas que automaticamente
prolongam experiências passadas no presente, como hábitos de memória. Esses hábitos sociais, que conectam passado e presente,
são costumes que constituem a continuidade social, entrelaçados com significados, valores e narrativas que lhes conferem certo
automatismo.
A MEMÓRIA COMO PROCESSO COLETIVO
A memória coletiva é um fenômeno complexo que vai além do simples acúmulo de memórias individuais. Refere-se a como grupos,
sejam familiares, étnicos ou nacionais, interagem para lembrar e transmitir experiências do passado. Esse processo não só
influencia como os indivíduos se lembram de eventos históricos ou culturais, mas também molda suas atitudes e percepções
atuais.
Do ponto de vista metateórico, a memória coletiva opõe-se ao individualismo metodológico, que tende a reduzir os processos
psicossociais a decisões racionais e ações individuais. A memória coletiva, por sua vez, reconhece a existência de construçõe s
sociais que emergem das interações grupais e das instituições compartilhadas. Essas construções vão desde objetos semióticos,
como monumentos e obras de arte, até práticas sociais cotidianas, como rituais familiares ou comemorações públicas.
Um aspecto fundamental é que a memória coletiva não se limita ao âmbito interno da mente individual. É um processo socialment e
distribuído, onde informações e memórias são compartilhadas e construídas coletivamente. Por exemplo, dentro de uma família,
diferentes membros podem se lembrar e complementar em suas memórias de eventos passados, configurando uma memória
familiar compartilhada e em constante evolução.
Além disso, a memória coletiva tem efeitos que transcendem o individual. Esses efeitos podem se manifestar em normas sociais,
atitudes coletivas ou mesmo no esquecimento de certos eventos traumáticos que são considerados tabus dentro de um grupo. A
forma como um grupo se lembra de sua história não afeta apenas a identidade coletiva, mas também influencia as percepções e
comportamentos individuais dentro desse grupo.
Portanto, falar de memória coletiva implica considerar não apenas as memórias em si, mas também como essas memórias são
construídas, transmitidas e interpretadas em contextos sociais mais amplos. É um processo dinâmico e em constante mudança,
influenciado por fatores culturais, históricos e sociais que moldam a maneira como grupos e sociedades entendem e negociam
seu passado comum.
PROCESSOS SOCIAIS DA MEMÓRIA: ATUALIDADE DOS POSTULADOS DE HALBWACHS
O trabalho clássico de Halbwachs sobre memória coletiva enfatiza que a memória é inerentemente social e construtiva. Segundo
sua perspectiva, os processos sociais são cruciais para a formação e manutenção da memória, destacando três aspectos principais.
Em primeiro lugar, os conteúdos da memória estão sempre imbuídos de interações sociais, refletindo um passado vivido
intersubjetivamente com os outros.
Em segundo lugar, a memória depende de estruturas sociais, como rituais e eventos, que funcionam como pontos de referência
para recordar eventos específicos.
1
Feito por MatyBuda
, Terceiro, a memória é compartilhada e coconstruída por meio da linguagem e da comunicação, sendo um ato público que tem
funções sociais significativas.
Esses princípios ressaltam como nossas experiências passadas são integradas e moldadas por nossa interação contínua com outras
pessoas na sociedade.
A COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL E A REEVOCAÇÃO PELOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA
Pesquisas indicam que a lembrança pública, como falar frequentemente sobre eventos pessoais ou coletivos, está intimamente
ligada à vivacidade das memórias e à memória de eventos importantes. Por exemplo, o atentado de 11 de março de 2003 em
Madri, conhecido como "11-M", é lembrado mais intensamente quando é discutido publicamente. Essa conexão está relacionada
à ativação emocional que esses eventos despertam, o que, por sua vez, impulsiona a necessidade de comunicá-los ou se expor à
mídia.
A expressão emocional gera processos cognitivos e interpessoais, como ruminação e compartilhamento social, comuns em eventos
pessoais e coletivos. Esta partilha social, definida como a recordação de experiências emocionais com os outros, tem um impacto
significativo na memória e na forma como os acontecimentos são processados.
A comunicação e o compartilhamento social são cruciais para a manutenção da memória coletiva. Por exemplo, no caso da Guerra
Civil Espanhola, aqueles que falam mais sobre ela tendem a ter maior conhecimento. Isso corrobora a ideia de Halbwachs do pap el
central da atividade social na memória.
No entanto, o compartilhamento social e a ruminação também podem intensificar as emoções negativas associadas a eventos
traumáticos, o que, por sua vez, pode polarizar as atitudes em relação à sociedade passada e atual. Esses efeitos podem variar
dependendo da cultura e do tempo decorrido desde o evento traumático.
Em suma, a forma como falamos e refletimos sobre eventos traumáticos, seja a nível individual ou coletivo, tem um impacto
significativo na nossa memória e na forma como percebemos a nossa sociedade.
IDENTIDADE COLETIVA E FUNÇÕES SOCIAIS DAS MEMÓRIAS
Halbwachs argumenta que a memória é social por causa de suas funções. Ao nos juntarmos a um grupo, abraçamos e
internalizamos suas tradições e representações compartilhadas, o que envolve compartilhar a memória coletiva do grupo. Isso
contribui para a nossa identificação social tanto individualmente quanto em grupo. A memória coletiva nos leva a reter aspectos
fundamentais para a identidade social de determinados eventos, bem como a adaptar a imagem do passado às necessidades atuais
do grupo, construindo assim uma imagem positiva do passado.
Em relação à retenção de fatos do passado coletivo, pesquisas sobre memórias flash têm mostrado a influência do pertencimento
grupal na memória. Por exemplo, eventos centrais para a identidade social e política nacional são lembrados mais vividamente.
Essa tendência se reflete em casos como o assassinato de importantes líderes políticos e a renúncia de figuras proeminentes, onde
as memórias são mais claras naqueles que compartilham a mesma identidade social.
Em suma, a memória coletiva desempenha um papel crucial na construção e manutenção da identidade social, tanto
individualmente como em grupo.
A FUNÇÃO GLOBAL
A função nostálgica da memória coletiva se reflete na percepção de que a sociedade do passado foi uma "Era de Ouro", fornecendo
uma imagem positiva e estável sobre a qual acrescentar novos elementos. Essa nostalgia, muitas vezes, idealiza aspectos como a
coesão familiar e a percepção da seguridade social. No entanto, a pesquisa histórica tem desafiado esses mitos, mostrando que
algumas percepções, como a existência de famílias trigeracionais na América do Norte, são exageradas.
Além disso, estudos como o de Schuman e Scott (1989) sobre a memória da Segunda Guerra Mundial destacam como as gerações
posteriores idealizam e reinterpretam eventos históricos passados. Por exemplo, aqueles que viveram a Guerra do Vietnã na
década de 1960 mostram uma visão mais positiva e vitoriosa da Segunda Guerra Mundial do que seus próprios contemporâneos
da época. Essa reinterpretação histórica ilustra a função nostálgica da memória coletiva, onde se idealiza um passado percebi do
como menos conflituoso e mais heroico em relação às realidades contemporâneas.
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Feito por MatyBuda