O LADO MORAL E AFETIVO DA HISTÓRIA
(UM EXEMPLO DE MEMÓRIA DE MASSA: O JULGAMENTO DE K. BARBIE, "O AÇOUGUEIRO DE LYON")
Denise Jodelet (1998)
Resumo:
O objetivo deste artigo é analisar um novo campo da Psicologia Social, o da memória, utilizando os modelos disponíveis na
psicologia e nas ciências sociais. Na primeira parte, examinamos alguns problemas centrais que levam à diferenciação de diferentes
tipos de memória. Na segunda parte, como exemplo, procuramos analisar um novo fenômeno da memória, a memória de massa,
e suas implicações ético-psicológicas.
A memória, como a moeda, tem um anverso e um reverso, manifestando-se em formas como a lembrança/esquecimento, a
vida/morte e a intensidade da lembrança/fossilização dos restos mortais. Esses paradoxos são amplificados em suas manifestaçõ es
como conteúdo e desenvolvimento. A evocação, a comemoração e o culto aos vestígios têm um perfume de morte, mas a
lembrança é a vida em sua obstinação.
No estudo da memória, podemos nos concentrar em várias perspectivas. A primeira vai do presente ao passado: perguntamo -nos
como indivíduos e grupos se lembram uns dos outros e como o presente intervém na reconstrução das memórias. Uma segunda
perspectiva vai do passado ao presente: focaliza como o passado retorna ao presente e funciona sob a máscara do esquecimento,
ou se perpetua como traços e reminiscências. A terceira perspectiva aborda os embates entre passado e presente: interessam-nos
os conflitos entre tradição e novidade, e como certos eventos atuais têm valor comemorativo e simbólico. Assim, debates recentes
na França na esteira do julgamento da Barbie evocam o problema da memória: o conflito entre o esquecimento como luta do
presente contra o passado e o retorno dos reprimidos à consciência e ao conhecimento.
MODELOS PSICOLÓGICOS DE MEMÓRIA
A evolução do tratamento da memória levou à integração de perspectivas individuais e sociais por várias razões. Por um lado, os
historiadores, seguindo Freud, não estabelecem uma distinção de natureza entre psicologia individual e coletiva, mas uma
diferença de escala, postulando uma analogia entre o funcionamento das representações coletivas e as histórias do sujeito. Po r
outro lado, embora a dimensão social não seja explicitamente levada em conta na psicologia, ela retorna por meio da linguagem,
que garante a vida e a unidade do pensamento e da memória.
Sempre postulamos a relação entre conhecimento e memória na psicologia. Enquanto alguns pensadores, como Piaget, reduzem
a memória ao conhecimento, outras abordagens, influenciadas pela psicologia cognitiva e pela teoria da linguagem, consideram o
conhecimento como uma forma de memorização. Essas abordagens se dividem em dois modelos centrais: o celeiro e o gerador.
O modelo do celeiro vê a memória de longo prazo como um depósito de informações e memórias do passado, concebendo o
pensamento como um registro estático de dados da experiência. Em contraste, o modelo gerador atribui à memória de longo prazo
uma estrutura ativa, que trabalha com a experiência presente, ressaltando o aspecto criativo das estruturas de memória e seu
papel na assimilação de novidades.
Dessa forma, a memória recebe dois status: um de inércia e reprodução de conteúdos mortos, e outro de dinamismo e criatividad e
de processos mnêmicos. No entanto, a abordagem cognitiva, centrada no funcionamento intraindividual, muitas vezes falha em
abordar o papel da memória como mediação simbólica entre o sujeito, os outros e o mundo.
Para os psicossociólogos anglo-saxões, a memória deve ser considerada como uma atividade social e não apenas como um
processo individual isolado. Propõem uma mudança de perspectiva que considera a memória como uma atividade integrada às
práticas sociais, como a conversação, que é um pilar da constituição social da memória. Essa perspectiva sustenta que a memória
se constitui na discussão por meio da retórica e do debate, demonstrando seu caráter ideológico e permitindo a continuidade d a
vida social.
Estamos diante de uma escola de pensamento que defende fortemente o status social da memória. No entanto, é importante não
limitar as práticas sociais apenas à conversação, pois isso não permite uma compreensão completa de como a memória é
preservada fora da comunicação ou do ambiente material. A memória, como atividade construtiva, também tem uma dimensão
social que explica sua construção a partir dos interesses e valores do grupo e do envolvimento afetivo de seus membros.
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Feito por MatyBuda
, A VISÃO SOCIOLÓGICA
Para analisar a memória em seu pleno funcionamento, devemos nos situar no nível do pensamento social e sua relação com a vida
dos grupos. A memória individual é influenciada pelo pertencimento a grupos sociais, o que proporciona estabilidade por meio da
linguagem, da escrita e das cristalizações culturais. Essas inscrições permanecem vivas graças ao dinamismo da vida mental e à
energia que encontram na vida em grupo, como demonstrado por Durkheim e Halbwachs.
Durkheim enfatiza que a memória é fundamental para a vida mental, garantindo a continuidade do pensamento. Memória e
pensamento estão intimamente ligados, e essa conexão se manifesta na reevocação de representações passadas. Halbwachs
avança nessa ideia, mostrando a relação entre memória e pensamento social, e buscando o princípio do dinamismo mnêmico na
vida dos grupos. Memória e pensamento compartilham uma estrutura mista de imagens, conceitos e palavras, o que confere um
caráter representacional aos quadros da memória individual e coletiva.
Essas estruturas incluem espaço, tempo, linguagem e atos de compreensão. A memória é parte integrante do pensamento social,
implicando interpretação do presente a partir do passado e atividade racional baseada nas condições sociais presentes. A unid ade
entre pensamento e memória é assegurada por referenciais que associam representações concretas e abstratas.
Halbwachs também articula a relação entre vida mental e social, afirmando que os grupos incorporam ideias e memórias, criando
memórias coletivas específicas que refletem a identidade e a continuidade do grupo. A memória coletiva, portanto, atende às
necessidades e interesses do grupo, legitimando e valorizando sua ordem social e seus valores.
Essa abordagem nos leva a considerar como a memória individual pode ser socialmente determinada e como a memória coletiva
se desenvolve e perdura, fornecendo estruturas e ferramentas para a atividade mnêmica. Novos tipos de memória também surgem
devido à evolução tecnológica e social, como a memória histórica e a memória de massa, que transcende grupos e os une,
influenciada pela mídia e fenômenos coletivos.
UMA MEMÓRIA DE MASSA
Uma das peculiaridades do nosso tempo é que as catástrofes causadas pelo homem se tornam catástrofes em massa por causa de
sua magnitude. Essas catástrofes geram um novo tipo de solidariedade internacional e exigem uma defesa planetária da
humanidade, mudando os modos de funcionamento político e democrático. Um exemplo desse fenômeno é o desenvolvimento
de agências internacionais e organizações não governamentais, como a Anistia Internacional, que denuncia abusos políticos, e os
Médicos Sem Fronteiras, que atuam em favor das populações afetadas por agressões ou abandono coletivo.
Queremos mostrar como a memória coletiva é usada, no caso dos crimes nazistas, para fortalecer a consciência coletiva e a
solidariedade, criando uma memória de massa. Para tanto, examinaremos o julgamento de Klaus Barbie, ocorrido em Lyon, em
maio e junho de 1987.
BARBIE E SEU PROCESSO
Klaus Barbie, um tenente da SS, chefiou a Seção IV do Einsatzkommando em Lyon entre 1942 e 1944, e era conhecido como o
carniceiro de Lyon por sua crueldade. Responsável pela repressão antijudaica e pela luta contra os "inimigos do Reich", Barbi e
prendeu e torturou até a morte Jean Moulin, chefe da resistência francesa. Condenado à morte à revelia por crimes de guerra em
1953 e 1954, foi protegido pelo Corpo Americano de Contra-Inteligência, permitindo-lhe fugir para o Peru e depois para a Bolívia.
Em 1983, foi entregue à justiça francesa e preso.
O caso Barbie foi levado a cabo por Serge Klarsfeld e sua esposa Beate, que lutaram para evitar que os crimes nazistas fossem
protegidos indefinidamente. Os Klarsfeld, agindo como um cristal de massa de acordo com Canetti, usaram "violência simbólica"
para atacar a consciência pública e levar a julgamento oficiais nazistas na França. A eles se juntaram 39 advogados de acusação,
representando as vítimas da Barbie e expandindo seus argumentos para todos os crimes contra a humanidade.
Entre as testemunhas de acusação estavam as vítimas da Barbie e seus familiares, que relembraram a tortura que sofreram. Outras
testemunhas reviveram o período da Resistência ou a vida nos campos de deportação. No terceiro dia do julgamento, Barbie se
recusou a comparecer, alegando a ilegalidade de sua detenção, o que tirou o lado sensacionalista do processo.
O julgamento da Barbie teve três aspectos importantes: estabelecer uma nova definição de crimes contra a humanidade,
comemorar horrores passados e "fazer justiça à memória". Examinarei três pontos-chave: o conflito entre história e memória, os
objetivos educacionais do processo e sua implementação e o aspecto ético da defesa da memória.
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Feito por MatyBuda
(UM EXEMPLO DE MEMÓRIA DE MASSA: O JULGAMENTO DE K. BARBIE, "O AÇOUGUEIRO DE LYON")
Denise Jodelet (1998)
Resumo:
O objetivo deste artigo é analisar um novo campo da Psicologia Social, o da memória, utilizando os modelos disponíveis na
psicologia e nas ciências sociais. Na primeira parte, examinamos alguns problemas centrais que levam à diferenciação de diferentes
tipos de memória. Na segunda parte, como exemplo, procuramos analisar um novo fenômeno da memória, a memória de massa,
e suas implicações ético-psicológicas.
A memória, como a moeda, tem um anverso e um reverso, manifestando-se em formas como a lembrança/esquecimento, a
vida/morte e a intensidade da lembrança/fossilização dos restos mortais. Esses paradoxos são amplificados em suas manifestaçõ es
como conteúdo e desenvolvimento. A evocação, a comemoração e o culto aos vestígios têm um perfume de morte, mas a
lembrança é a vida em sua obstinação.
No estudo da memória, podemos nos concentrar em várias perspectivas. A primeira vai do presente ao passado: perguntamo -nos
como indivíduos e grupos se lembram uns dos outros e como o presente intervém na reconstrução das memórias. Uma segunda
perspectiva vai do passado ao presente: focaliza como o passado retorna ao presente e funciona sob a máscara do esquecimento,
ou se perpetua como traços e reminiscências. A terceira perspectiva aborda os embates entre passado e presente: interessam-nos
os conflitos entre tradição e novidade, e como certos eventos atuais têm valor comemorativo e simbólico. Assim, debates recentes
na França na esteira do julgamento da Barbie evocam o problema da memória: o conflito entre o esquecimento como luta do
presente contra o passado e o retorno dos reprimidos à consciência e ao conhecimento.
MODELOS PSICOLÓGICOS DE MEMÓRIA
A evolução do tratamento da memória levou à integração de perspectivas individuais e sociais por várias razões. Por um lado, os
historiadores, seguindo Freud, não estabelecem uma distinção de natureza entre psicologia individual e coletiva, mas uma
diferença de escala, postulando uma analogia entre o funcionamento das representações coletivas e as histórias do sujeito. Po r
outro lado, embora a dimensão social não seja explicitamente levada em conta na psicologia, ela retorna por meio da linguagem,
que garante a vida e a unidade do pensamento e da memória.
Sempre postulamos a relação entre conhecimento e memória na psicologia. Enquanto alguns pensadores, como Piaget, reduzem
a memória ao conhecimento, outras abordagens, influenciadas pela psicologia cognitiva e pela teoria da linguagem, consideram o
conhecimento como uma forma de memorização. Essas abordagens se dividem em dois modelos centrais: o celeiro e o gerador.
O modelo do celeiro vê a memória de longo prazo como um depósito de informações e memórias do passado, concebendo o
pensamento como um registro estático de dados da experiência. Em contraste, o modelo gerador atribui à memória de longo prazo
uma estrutura ativa, que trabalha com a experiência presente, ressaltando o aspecto criativo das estruturas de memória e seu
papel na assimilação de novidades.
Dessa forma, a memória recebe dois status: um de inércia e reprodução de conteúdos mortos, e outro de dinamismo e criatividad e
de processos mnêmicos. No entanto, a abordagem cognitiva, centrada no funcionamento intraindividual, muitas vezes falha em
abordar o papel da memória como mediação simbólica entre o sujeito, os outros e o mundo.
Para os psicossociólogos anglo-saxões, a memória deve ser considerada como uma atividade social e não apenas como um
processo individual isolado. Propõem uma mudança de perspectiva que considera a memória como uma atividade integrada às
práticas sociais, como a conversação, que é um pilar da constituição social da memória. Essa perspectiva sustenta que a memória
se constitui na discussão por meio da retórica e do debate, demonstrando seu caráter ideológico e permitindo a continuidade d a
vida social.
Estamos diante de uma escola de pensamento que defende fortemente o status social da memória. No entanto, é importante não
limitar as práticas sociais apenas à conversação, pois isso não permite uma compreensão completa de como a memória é
preservada fora da comunicação ou do ambiente material. A memória, como atividade construtiva, também tem uma dimensão
social que explica sua construção a partir dos interesses e valores do grupo e do envolvimento afetivo de seus membros.
1
Feito por MatyBuda
, A VISÃO SOCIOLÓGICA
Para analisar a memória em seu pleno funcionamento, devemos nos situar no nível do pensamento social e sua relação com a vida
dos grupos. A memória individual é influenciada pelo pertencimento a grupos sociais, o que proporciona estabilidade por meio da
linguagem, da escrita e das cristalizações culturais. Essas inscrições permanecem vivas graças ao dinamismo da vida mental e à
energia que encontram na vida em grupo, como demonstrado por Durkheim e Halbwachs.
Durkheim enfatiza que a memória é fundamental para a vida mental, garantindo a continuidade do pensamento. Memória e
pensamento estão intimamente ligados, e essa conexão se manifesta na reevocação de representações passadas. Halbwachs
avança nessa ideia, mostrando a relação entre memória e pensamento social, e buscando o princípio do dinamismo mnêmico na
vida dos grupos. Memória e pensamento compartilham uma estrutura mista de imagens, conceitos e palavras, o que confere um
caráter representacional aos quadros da memória individual e coletiva.
Essas estruturas incluem espaço, tempo, linguagem e atos de compreensão. A memória é parte integrante do pensamento social,
implicando interpretação do presente a partir do passado e atividade racional baseada nas condições sociais presentes. A unid ade
entre pensamento e memória é assegurada por referenciais que associam representações concretas e abstratas.
Halbwachs também articula a relação entre vida mental e social, afirmando que os grupos incorporam ideias e memórias, criando
memórias coletivas específicas que refletem a identidade e a continuidade do grupo. A memória coletiva, portanto, atende às
necessidades e interesses do grupo, legitimando e valorizando sua ordem social e seus valores.
Essa abordagem nos leva a considerar como a memória individual pode ser socialmente determinada e como a memória coletiva
se desenvolve e perdura, fornecendo estruturas e ferramentas para a atividade mnêmica. Novos tipos de memória também surgem
devido à evolução tecnológica e social, como a memória histórica e a memória de massa, que transcende grupos e os une,
influenciada pela mídia e fenômenos coletivos.
UMA MEMÓRIA DE MASSA
Uma das peculiaridades do nosso tempo é que as catástrofes causadas pelo homem se tornam catástrofes em massa por causa de
sua magnitude. Essas catástrofes geram um novo tipo de solidariedade internacional e exigem uma defesa planetária da
humanidade, mudando os modos de funcionamento político e democrático. Um exemplo desse fenômeno é o desenvolvimento
de agências internacionais e organizações não governamentais, como a Anistia Internacional, que denuncia abusos políticos, e os
Médicos Sem Fronteiras, que atuam em favor das populações afetadas por agressões ou abandono coletivo.
Queremos mostrar como a memória coletiva é usada, no caso dos crimes nazistas, para fortalecer a consciência coletiva e a
solidariedade, criando uma memória de massa. Para tanto, examinaremos o julgamento de Klaus Barbie, ocorrido em Lyon, em
maio e junho de 1987.
BARBIE E SEU PROCESSO
Klaus Barbie, um tenente da SS, chefiou a Seção IV do Einsatzkommando em Lyon entre 1942 e 1944, e era conhecido como o
carniceiro de Lyon por sua crueldade. Responsável pela repressão antijudaica e pela luta contra os "inimigos do Reich", Barbi e
prendeu e torturou até a morte Jean Moulin, chefe da resistência francesa. Condenado à morte à revelia por crimes de guerra em
1953 e 1954, foi protegido pelo Corpo Americano de Contra-Inteligência, permitindo-lhe fugir para o Peru e depois para a Bolívia.
Em 1983, foi entregue à justiça francesa e preso.
O caso Barbie foi levado a cabo por Serge Klarsfeld e sua esposa Beate, que lutaram para evitar que os crimes nazistas fossem
protegidos indefinidamente. Os Klarsfeld, agindo como um cristal de massa de acordo com Canetti, usaram "violência simbólica"
para atacar a consciência pública e levar a julgamento oficiais nazistas na França. A eles se juntaram 39 advogados de acusação,
representando as vítimas da Barbie e expandindo seus argumentos para todos os crimes contra a humanidade.
Entre as testemunhas de acusação estavam as vítimas da Barbie e seus familiares, que relembraram a tortura que sofreram. Outras
testemunhas reviveram o período da Resistência ou a vida nos campos de deportação. No terceiro dia do julgamento, Barbie se
recusou a comparecer, alegando a ilegalidade de sua detenção, o que tirou o lado sensacionalista do processo.
O julgamento da Barbie teve três aspectos importantes: estabelecer uma nova definição de crimes contra a humanidade,
comemorar horrores passados e "fazer justiça à memória". Examinarei três pontos-chave: o conflito entre história e memória, os
objetivos educacionais do processo e sua implementação e o aspecto ético da defesa da memória.
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Feito por MatyBuda