PSICOPATOLOGIA DO COTIDIANO: IV. MEMÓRIAS DE INFÂNCIA &
OCULTANDO MEMÓRIAS
Sigmund Freud (1901)
Resumo:
Em meu segundo ensaio, explorei a natureza enviesada de nossa memória, destacando uma observação intrigante sobre memórias
de infância. Acontece que as primeiras lembranças da infância são muitas vezes indiferentes e incidentais, enquanto eventos
importantes carecem de marca na memória adulta. Esse fenômeno é o que ele chamou de "ocultação de memórias".
A ocultação de memórias é o resultado de um processo de deslocamento da memória. Isso significa que as memórias substituem
as mais significativas devido a resistências internas. Embora essas memórias de infância indiferentes possam parecer selecionadas
de acordo com outros princípios que não os da maturidade intelectual, elas estão, na verdade, associadas a outras memórias
reprimidas.
Dentro desse conceito de ocultação de memórias, existem diferentes tipos de relações temporais entre a ocultação de memória e
o evento encoberto. Por exemplo, há o deslocamento para trás, onde o conteúdo da memória oculta pertence aos primeiros anos
da infância, enquanto as experiências substitutas correspondem aos anos posteriores da pessoa. Há também o deslocamento para
frente, onde uma memória indiferente recente torna-se uma memória oculta por causa de sua ligação com uma experiência
anterior.
Além disso, há o deslocamento simultâneo ou contíguo, onde a memória oculta está ligada à impressão oculta não apenas por seu
conteúdo, mas também por sua contiguidade no tempo.
Embora eu não tenha abordado como essas memórias ocultas afetam o pensamento neurótico neste ensaio, é importante destacar
a homogeneidade entre o esquecimento de nomes próprios e a formação de memórias ocultas. Apesar das aparentes diferenças
entre os dois fenômenos, predominam as coincidências: em ambos os casos, a memória não reproduz a coisa correta, mas um
substituto.
Esses achados sugerem que a falha e o mau direcionamento da função reprodutiva da memória são influenciados por uma
tendência que favorece certas memórias em detrimento de outras. Em última análise, este estudo nos convida a refletir sobre a
complexidade e o viés inerentes à nossa capacidade de lembrar e como esse viés pode afetar nossa compreensão do passado e
nosso pensamento presente.
O tema das memórias de infância é extremamente interessante para mim, tanto que quero explorá-lo além do que discuti até aqui.
Fico intrigado em saber até que ponto as lembranças remontam à infância. Ao revisar pesquisas anteriores, como a de V. e C. Henri
e Potwin, verifico que há grandes diferenças individuais em quando as pessoas se lembram de seu primeiro evento. Alguns colocam
sua primeira lembrança no sexto mês de vida, enquanto outros não se lembram de nada até os seis ou até oito anos de idade.
Essas variações no aparecimento das memórias de infância levantam questões importantes sobre sua natureza e significado.
Parece claro que a simples recolha de informações através de inquéritos não é suficiente; uma elaboração mais aprofundada,
envolvendo a pessoa pesquisada, também é necessária. Acho que tendemos a ignorar o fenômeno da amnésia infantil e subestimar
sua importância como um enigma intrigante. Esquecemo-nos das complexas operações mentais e emocionais que as crianças são
capazes de realizar desde cedo, o que nos deve surpreender, dada a pouca memória que temos desses processos.
Ao analisar memórias preservadas da infância, noto que algumas parecem compreensíveis, enquanto outras são estranhas ou
incompreensíveis. No entanto, após um exame mais atento dessas memórias, verifico que elas não são necessariamente precisas.
Muitas vezes são distorcidos, incompletos ou deslocados no tempo e no espaço. Este fenômeno não é simplesmente devido à
infidelidade da memória, mas parece ser influenciado por poderes psíquicos posteriores que moldam a capacidade de lembrar
eventos da infância.
É interessante notar que os adultos têm diferentes maneiras de lembrar, algumas em imagens visuais e outras de forma mais
auditiva ou motora. No entanto, mesmo aqueles que não são predominantemente visuais em sua memória tendem a se lembrar
visualmente de seus eventos de infância. No meu caso, as primeiras lembranças de infância são visuais, como cenas teatrais, o que
é surpreendente, já que os adultos geralmente não se veem em suas memórias posteriores.
Quanto à ocultação de memórias, encontro inúmeros exemplos em minhas investigações psicanalíticas. Essas memórias podem
ser difíceis de comunicar devido à complexidade de seus vínculos com a vida posterior da pessoa. Muitas vezes, para entender
1
Feito por MatyBuda
OCULTANDO MEMÓRIAS
Sigmund Freud (1901)
Resumo:
Em meu segundo ensaio, explorei a natureza enviesada de nossa memória, destacando uma observação intrigante sobre memórias
de infância. Acontece que as primeiras lembranças da infância são muitas vezes indiferentes e incidentais, enquanto eventos
importantes carecem de marca na memória adulta. Esse fenômeno é o que ele chamou de "ocultação de memórias".
A ocultação de memórias é o resultado de um processo de deslocamento da memória. Isso significa que as memórias substituem
as mais significativas devido a resistências internas. Embora essas memórias de infância indiferentes possam parecer selecionadas
de acordo com outros princípios que não os da maturidade intelectual, elas estão, na verdade, associadas a outras memórias
reprimidas.
Dentro desse conceito de ocultação de memórias, existem diferentes tipos de relações temporais entre a ocultação de memória e
o evento encoberto. Por exemplo, há o deslocamento para trás, onde o conteúdo da memória oculta pertence aos primeiros anos
da infância, enquanto as experiências substitutas correspondem aos anos posteriores da pessoa. Há também o deslocamento para
frente, onde uma memória indiferente recente torna-se uma memória oculta por causa de sua ligação com uma experiência
anterior.
Além disso, há o deslocamento simultâneo ou contíguo, onde a memória oculta está ligada à impressão oculta não apenas por seu
conteúdo, mas também por sua contiguidade no tempo.
Embora eu não tenha abordado como essas memórias ocultas afetam o pensamento neurótico neste ensaio, é importante destacar
a homogeneidade entre o esquecimento de nomes próprios e a formação de memórias ocultas. Apesar das aparentes diferenças
entre os dois fenômenos, predominam as coincidências: em ambos os casos, a memória não reproduz a coisa correta, mas um
substituto.
Esses achados sugerem que a falha e o mau direcionamento da função reprodutiva da memória são influenciados por uma
tendência que favorece certas memórias em detrimento de outras. Em última análise, este estudo nos convida a refletir sobre a
complexidade e o viés inerentes à nossa capacidade de lembrar e como esse viés pode afetar nossa compreensão do passado e
nosso pensamento presente.
O tema das memórias de infância é extremamente interessante para mim, tanto que quero explorá-lo além do que discuti até aqui.
Fico intrigado em saber até que ponto as lembranças remontam à infância. Ao revisar pesquisas anteriores, como a de V. e C. Henri
e Potwin, verifico que há grandes diferenças individuais em quando as pessoas se lembram de seu primeiro evento. Alguns colocam
sua primeira lembrança no sexto mês de vida, enquanto outros não se lembram de nada até os seis ou até oito anos de idade.
Essas variações no aparecimento das memórias de infância levantam questões importantes sobre sua natureza e significado.
Parece claro que a simples recolha de informações através de inquéritos não é suficiente; uma elaboração mais aprofundada,
envolvendo a pessoa pesquisada, também é necessária. Acho que tendemos a ignorar o fenômeno da amnésia infantil e subestimar
sua importância como um enigma intrigante. Esquecemo-nos das complexas operações mentais e emocionais que as crianças são
capazes de realizar desde cedo, o que nos deve surpreender, dada a pouca memória que temos desses processos.
Ao analisar memórias preservadas da infância, noto que algumas parecem compreensíveis, enquanto outras são estranhas ou
incompreensíveis. No entanto, após um exame mais atento dessas memórias, verifico que elas não são necessariamente precisas.
Muitas vezes são distorcidos, incompletos ou deslocados no tempo e no espaço. Este fenômeno não é simplesmente devido à
infidelidade da memória, mas parece ser influenciado por poderes psíquicos posteriores que moldam a capacidade de lembrar
eventos da infância.
É interessante notar que os adultos têm diferentes maneiras de lembrar, algumas em imagens visuais e outras de forma mais
auditiva ou motora. No entanto, mesmo aqueles que não são predominantemente visuais em sua memória tendem a se lembrar
visualmente de seus eventos de infância. No meu caso, as primeiras lembranças de infância são visuais, como cenas teatrais, o que
é surpreendente, já que os adultos geralmente não se veem em suas memórias posteriores.
Quanto à ocultação de memórias, encontro inúmeros exemplos em minhas investigações psicanalíticas. Essas memórias podem
ser difíceis de comunicar devido à complexidade de seus vínculos com a vida posterior da pessoa. Muitas vezes, para entender
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Feito por MatyBuda