REFLEXÕES SOBRE A CONSTRUÇÃO SOCIAL (CAP. I, II)
Maria Gergen - Kenneth J. Gergen (2011)
Resumo:
1. O IMPACTO DA CONSTRUÇÃO SOCIAL
No mundo das ideias, estamos presenciando uma grande transformação. As tradições estão sendo questionadas em todos os
lugares, e os critérios absolutos e universais de verdade, objetividade, lógica, progresso e moralidade estão se tornando cad a vez
mais borrados.
A fé está constantemente sendo testada e as dúvidas nos visitam repetidamente. No entanto, dessa situação tumultuada surge
um novo diálogo e novas vozes que falam de esperança e de um futuro para nós seres humanos. Esse diálogo transcende
continentes e culturas e é acompanhado por novas práticas profissionais aplicáveis em organizações, educação, terapia, pesquisa
social, aconselhamento psicológico, resolução de conflitos, desenvolvimento comunitário e outros campos.
Essa revolução teórica e prática tem sido chamada de muitas coisas. Pós-modernismo, pós-iluminismo, pós-empirismo e pós-
globalismo são alguns dos termos usados para se referir a ele. No entanto, todas elas estão vinculadas ao conceito de constru ção
social, ou seja, a criação de significados por meio do trabalho colaborativo.
A construção social não é atribuível a um único indivíduo ou grupo, nem é singular ou unificada, mas é o resultado de uma cri ação
socialmente compartilhada. Nesse contexto, não temos medo de tensões ou de falta de certeza, pois estabelecer uma verdade
absoluta, uma lógica fundamental, um código estrito de valores ou um conjunto fechado de práticas seria contrário ao pleno
desenvolvimento das ideias propostas pelos construcionistas sociais.
Nós, os autores deste livro, dedicamos a maior parte de nossas carreiras profissionais ao diálogo construcionista. Nosso prop ósito
aqui é oferecer a estudantes, professores e profissionais de todas as esferas da vida, bem como qualquer pessoa que esteja
simplesmente curiosa sobre o tema, uma exposição que facilite a compreensão e apreciação do essencial dessas ideias
emocionantes e poderosas.
Nos dois primeiros capítulos discutiremos alguns dos desenvolvimentos teóricos mais importantes. Em seguida, abordaremos o
impacto desses conceitos na forma como vivemos e trabalhamos. Continuaremos com uma revisão das ideias construcionistas
aplicadas em organizações, psicoterapia, educação, resolução de conflitos, pesquisa social e vida cotidiana. Por fim, reuniremos as
críticas mais frequentes ao construcionismo.
A IDEIA BÁSICA: NÓS CONSTRUÍMOS O MUNDO
O construcionismo social baseia-se numa ideia principal, simples e clara. No entanto, à medida que desvendamos o que essa ideia
implica e seu alcance, essa simplicidade desaparece rapidamente. A ideia básica nos leva a reconsiderar praticamente tudo o q ue
pensamos sobre o mundo e sobre nós mesmos, abrindo-nos para novas e excitantes formas de agir.
Para entender as possibilidades dessa ideia, vamos examinar o mundo do conhecimento do senso comum. O que poderia ser mais
óbvio do que a existência de um mundo que podemos observar e entender ao nosso redor? No entanto, o que acontece se
questionarmos a veracidade desses pressupostos que tomamos como certos?
Imaginemos que dizemos que não há árvores, prédios, mulheres e homens até concordarmos que eles existem. Embora essa
afirmação pareça absurda, considere a perspectiva de uma criança como Julie, cuja percepção do mundo é diferente da dos
adultos. Para Julie, o mundo é uma mistura confusa de sons e movimentos, sem as distinções que nós, adultos, fazemos.
Como adultos, construímos o mundo de forma diferente a partir de nossas relações sociais. É a partir dessas relações que o mu ndo
ganha sentido para nós e para Julie. Não se trata do que "é", mas do que "é para nós" de nossos relacionamentos.
Ao nos comunicarmos uns com os outros, construímos o mundo em que vivemos. Se mantivermos nossas tradições, a vida
provavelmente seguirá seu curso normalmente. No entanto, tudo o que tomamos como certo pode ser questionado, e o que
construímos como "problemas" pode ser reconstruído como "oportunidades".
As ideias construcionistas nos convidam a explorar um amplo espectro de possibilidades e nos libertam das restrições do que é
tradicionalmente aceito como verdadeiro ou certo. Ao dialogar, ouvir novas vozes e considerar metáforas alternativas, cruzamo s o
limiar para novos mundos de significado. Juntos, podemos criar o futuro.
1
Feito por MatyBuda
, ENVELHECIMENTO POSITIVO: UM ESTUDO DE CASO
O envelhecimento é geralmente percebido como um estágio de declínio. No entanto, por que continuamos a vê-la sob uma luz
negativa se é uma construção social? É possível entendê-la como um processo positivo, de crescimento e evolução? Nós nos
propusemos a esse desafio e criamos um boletim chamado "Envelhecimento Positivo", que destaca o potencial positivo do
envelhecimento a partir de pesquisas científicas e outras fontes. Foi bem recebido por leitores de todo o mundo, que expressaram
sua gratidão e esperança de que eles serão capazes de ter uma vida plena por um longo tempo.
Por meio de oficinas sobre envelhecimento positivo, aprendemos muito com pessoas interessadas nesse tema. Nessas oficinas,
incentivamos os participantes a desenvolver reconstruções positivas de eventos temidos, como declínio físico, doença crônica ou
perda. Os grupos têm demonstrado grande criatividade em encontrar oportunidades nessas situações. Por exemplo, a doença
crônica pode ser vista como uma oportunidade de valorizar aqueles que amamos, ganhar paciência, deixar de lado as pretensões,
aprender, explorar novas atividades e fazer conexões significativas. Esses grupos nos ensinam que juntos podemos transformar o
envelhecimento em uma nova realidade multifacetada.
DOS JOGOS DE IDIOMAS AOS MUNDOS POSSÍVEIS
A ideia básica de construção social é simples e ao mesmo tempo desafiadora. À medida que exploramos o amplo escopo das ideias
construcionistas, suas muitas facetas serão delineadas. Começaremos por nos concentrar na linguagem, embora, como veremos,
a nossa exposição se expanda rapidamente para abranger todas as formas vitais de cultura.
LINGUAGEM: DA IMAGEM À PRÁTICA
A linguagem tem sido historicamente considerada como uma janela precisa para a realidade. Esperamos que as palavras dos
cientistas reflitam fielmente suas observações, assim como esperamos que as notícias sejam uma representação precisa dos
acontecimentos. No entanto, olhando para o simples ato de nomear uma pessoa, como Frank, Sally, Ben e Shawn, podemos ver
que os nomes são arbitrariamente atribuídos pelos pais, exceto nos casos em que seguem tradições familiares. Além de sua função
prática, os nomes são ferramentas de comunicação e interação social, não representações precisas do mundo.
No caso de termos como "parar", "perigo" ou "me passar a bola", é fácil entender sua utilidade na comunicação cotidiana. No
entanto, quando se trata de discursos mais complexos, como noticiários ou artigos científicos, a relação entre linguagem e
realidade torna-se menos clara. A verdade percebida de uma história depende da tradição cultural e linguística a partir da qual ela
é avaliada. Assim, a veracidade de uma narrativa é determinada pela comunidade que a valoriza, sugerindo que a verdade é relativa
a cada contexto cultural e linguístico específico.
JOGOS DE IDIOMAS E OS LIMITES DO NOSSO MUNDO
Wittgenstein introduziu a metáfora dos jogos de linguagem para ilustrar como as palavras são inseridas em sistemas de regras
compartilhadas. Isso é claramente visto na gramática, onde regras comuns ditam o que podemos e o que não podemos dizer.
No entanto, cada cultura tem seus próprios jogos de linguagem, o que limita a liberdade de expressão daqueles que participam
deles. Por exemplo, biólogos, físicos, banqueiros e pregadores operam em diferentes jogos de linguagem, e cada um descrever ia
uma pessoa de acordo com as regras de seu jogo. Trocar de jogo pode ser confuso ou até perigoso, como perguntar a um biólogo
sobre a alma de um sapo.
As palavras também informam nossas ações e podem condicionar como interagimos com os objetos. No xadrez, por exemplo,
palavras como "xeque-mate" só fazem sentido no contexto específico do jogo. Essa abordagem envolve a dupla escuta: atender
ao conteúdo e considerar as consequências de nossas palavras.
Wittgenstein sugere que nossos jogos de linguagem estão inseridos em formas mais amplas de atividade, que ele chama de
"formas de vida". Esses modos de vida, como os de cabeleireiros, biólogos e banqueiros, dão sentido às palavras e definem os
limites do nosso mundo.
O REAL COMO O BEM
O construcionismo social desafia a distinção entre fatos e valores. Exemplos como manchetes de jornais sobre o colapso do reg ime
de Saddam Hussein ilustram como a descrição dos eventos varia de acordo com a cultura e os valores envolvidos. Cada tradição
cultural influencia a perspectiva a partir da qual os eventos são narrados.
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Feito por MatyBuda
Maria Gergen - Kenneth J. Gergen (2011)
Resumo:
1. O IMPACTO DA CONSTRUÇÃO SOCIAL
No mundo das ideias, estamos presenciando uma grande transformação. As tradições estão sendo questionadas em todos os
lugares, e os critérios absolutos e universais de verdade, objetividade, lógica, progresso e moralidade estão se tornando cad a vez
mais borrados.
A fé está constantemente sendo testada e as dúvidas nos visitam repetidamente. No entanto, dessa situação tumultuada surge
um novo diálogo e novas vozes que falam de esperança e de um futuro para nós seres humanos. Esse diálogo transcende
continentes e culturas e é acompanhado por novas práticas profissionais aplicáveis em organizações, educação, terapia, pesquisa
social, aconselhamento psicológico, resolução de conflitos, desenvolvimento comunitário e outros campos.
Essa revolução teórica e prática tem sido chamada de muitas coisas. Pós-modernismo, pós-iluminismo, pós-empirismo e pós-
globalismo são alguns dos termos usados para se referir a ele. No entanto, todas elas estão vinculadas ao conceito de constru ção
social, ou seja, a criação de significados por meio do trabalho colaborativo.
A construção social não é atribuível a um único indivíduo ou grupo, nem é singular ou unificada, mas é o resultado de uma cri ação
socialmente compartilhada. Nesse contexto, não temos medo de tensões ou de falta de certeza, pois estabelecer uma verdade
absoluta, uma lógica fundamental, um código estrito de valores ou um conjunto fechado de práticas seria contrário ao pleno
desenvolvimento das ideias propostas pelos construcionistas sociais.
Nós, os autores deste livro, dedicamos a maior parte de nossas carreiras profissionais ao diálogo construcionista. Nosso prop ósito
aqui é oferecer a estudantes, professores e profissionais de todas as esferas da vida, bem como qualquer pessoa que esteja
simplesmente curiosa sobre o tema, uma exposição que facilite a compreensão e apreciação do essencial dessas ideias
emocionantes e poderosas.
Nos dois primeiros capítulos discutiremos alguns dos desenvolvimentos teóricos mais importantes. Em seguida, abordaremos o
impacto desses conceitos na forma como vivemos e trabalhamos. Continuaremos com uma revisão das ideias construcionistas
aplicadas em organizações, psicoterapia, educação, resolução de conflitos, pesquisa social e vida cotidiana. Por fim, reuniremos as
críticas mais frequentes ao construcionismo.
A IDEIA BÁSICA: NÓS CONSTRUÍMOS O MUNDO
O construcionismo social baseia-se numa ideia principal, simples e clara. No entanto, à medida que desvendamos o que essa ideia
implica e seu alcance, essa simplicidade desaparece rapidamente. A ideia básica nos leva a reconsiderar praticamente tudo o q ue
pensamos sobre o mundo e sobre nós mesmos, abrindo-nos para novas e excitantes formas de agir.
Para entender as possibilidades dessa ideia, vamos examinar o mundo do conhecimento do senso comum. O que poderia ser mais
óbvio do que a existência de um mundo que podemos observar e entender ao nosso redor? No entanto, o que acontece se
questionarmos a veracidade desses pressupostos que tomamos como certos?
Imaginemos que dizemos que não há árvores, prédios, mulheres e homens até concordarmos que eles existem. Embora essa
afirmação pareça absurda, considere a perspectiva de uma criança como Julie, cuja percepção do mundo é diferente da dos
adultos. Para Julie, o mundo é uma mistura confusa de sons e movimentos, sem as distinções que nós, adultos, fazemos.
Como adultos, construímos o mundo de forma diferente a partir de nossas relações sociais. É a partir dessas relações que o mu ndo
ganha sentido para nós e para Julie. Não se trata do que "é", mas do que "é para nós" de nossos relacionamentos.
Ao nos comunicarmos uns com os outros, construímos o mundo em que vivemos. Se mantivermos nossas tradições, a vida
provavelmente seguirá seu curso normalmente. No entanto, tudo o que tomamos como certo pode ser questionado, e o que
construímos como "problemas" pode ser reconstruído como "oportunidades".
As ideias construcionistas nos convidam a explorar um amplo espectro de possibilidades e nos libertam das restrições do que é
tradicionalmente aceito como verdadeiro ou certo. Ao dialogar, ouvir novas vozes e considerar metáforas alternativas, cruzamo s o
limiar para novos mundos de significado. Juntos, podemos criar o futuro.
1
Feito por MatyBuda
, ENVELHECIMENTO POSITIVO: UM ESTUDO DE CASO
O envelhecimento é geralmente percebido como um estágio de declínio. No entanto, por que continuamos a vê-la sob uma luz
negativa se é uma construção social? É possível entendê-la como um processo positivo, de crescimento e evolução? Nós nos
propusemos a esse desafio e criamos um boletim chamado "Envelhecimento Positivo", que destaca o potencial positivo do
envelhecimento a partir de pesquisas científicas e outras fontes. Foi bem recebido por leitores de todo o mundo, que expressaram
sua gratidão e esperança de que eles serão capazes de ter uma vida plena por um longo tempo.
Por meio de oficinas sobre envelhecimento positivo, aprendemos muito com pessoas interessadas nesse tema. Nessas oficinas,
incentivamos os participantes a desenvolver reconstruções positivas de eventos temidos, como declínio físico, doença crônica ou
perda. Os grupos têm demonstrado grande criatividade em encontrar oportunidades nessas situações. Por exemplo, a doença
crônica pode ser vista como uma oportunidade de valorizar aqueles que amamos, ganhar paciência, deixar de lado as pretensões,
aprender, explorar novas atividades e fazer conexões significativas. Esses grupos nos ensinam que juntos podemos transformar o
envelhecimento em uma nova realidade multifacetada.
DOS JOGOS DE IDIOMAS AOS MUNDOS POSSÍVEIS
A ideia básica de construção social é simples e ao mesmo tempo desafiadora. À medida que exploramos o amplo escopo das ideias
construcionistas, suas muitas facetas serão delineadas. Começaremos por nos concentrar na linguagem, embora, como veremos,
a nossa exposição se expanda rapidamente para abranger todas as formas vitais de cultura.
LINGUAGEM: DA IMAGEM À PRÁTICA
A linguagem tem sido historicamente considerada como uma janela precisa para a realidade. Esperamos que as palavras dos
cientistas reflitam fielmente suas observações, assim como esperamos que as notícias sejam uma representação precisa dos
acontecimentos. No entanto, olhando para o simples ato de nomear uma pessoa, como Frank, Sally, Ben e Shawn, podemos ver
que os nomes são arbitrariamente atribuídos pelos pais, exceto nos casos em que seguem tradições familiares. Além de sua função
prática, os nomes são ferramentas de comunicação e interação social, não representações precisas do mundo.
No caso de termos como "parar", "perigo" ou "me passar a bola", é fácil entender sua utilidade na comunicação cotidiana. No
entanto, quando se trata de discursos mais complexos, como noticiários ou artigos científicos, a relação entre linguagem e
realidade torna-se menos clara. A verdade percebida de uma história depende da tradição cultural e linguística a partir da qual ela
é avaliada. Assim, a veracidade de uma narrativa é determinada pela comunidade que a valoriza, sugerindo que a verdade é relativa
a cada contexto cultural e linguístico específico.
JOGOS DE IDIOMAS E OS LIMITES DO NOSSO MUNDO
Wittgenstein introduziu a metáfora dos jogos de linguagem para ilustrar como as palavras são inseridas em sistemas de regras
compartilhadas. Isso é claramente visto na gramática, onde regras comuns ditam o que podemos e o que não podemos dizer.
No entanto, cada cultura tem seus próprios jogos de linguagem, o que limita a liberdade de expressão daqueles que participam
deles. Por exemplo, biólogos, físicos, banqueiros e pregadores operam em diferentes jogos de linguagem, e cada um descrever ia
uma pessoa de acordo com as regras de seu jogo. Trocar de jogo pode ser confuso ou até perigoso, como perguntar a um biólogo
sobre a alma de um sapo.
As palavras também informam nossas ações e podem condicionar como interagimos com os objetos. No xadrez, por exemplo,
palavras como "xeque-mate" só fazem sentido no contexto específico do jogo. Essa abordagem envolve a dupla escuta: atender
ao conteúdo e considerar as consequências de nossas palavras.
Wittgenstein sugere que nossos jogos de linguagem estão inseridos em formas mais amplas de atividade, que ele chama de
"formas de vida". Esses modos de vida, como os de cabeleireiros, biólogos e banqueiros, dão sentido às palavras e definem os
limites do nosso mundo.
O REAL COMO O BEM
O construcionismo social desafia a distinção entre fatos e valores. Exemplos como manchetes de jornais sobre o colapso do reg ime
de Saddam Hussein ilustram como a descrição dos eventos varia de acordo com a cultura e os valores envolvidos. Cada tradição
cultural influencia a perspectiva a partir da qual os eventos são narrados.
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Feito por MatyBuda