O PODER DAS MINORIAS (CAP. 1 e 2)
Gabriel Mugny (1981)
Resumo:
CAPÍTULO UM: COMO É POSSÍVEL A INFLUÊNCIA DAS MINORIAS?
Interessa-nos abordar essa questão com um duplo sentido. Primeiramente, exploraremos a evolução do trabalho sobre influência
social. Durante décadas, muitos não consideraram a possibilidade de que as minorias pudessem ser influentes. Perguntamo-nos
por que isso tem acontecido, sob quais pressupostos teóricos e, sobretudo, por meio de quais postulados a influência minoritária
tem sido teoricamente possível.
Uma vez estabelecidos os pré-requisitos teóricos de uma teoria da influência minoritária, podemos nos concentrar diretamente
nesta questão: como e por meio de quais mecanismos as minorias, em vez de sucumbir à sua própria marginalização, permanecem
ativas em uma sociedade e transformam outras, conseguindo incorporar seus projetos à história dessa sociedade?
1. O MODELO "FUNCIONALISTA"
Em "La Psychologie des minorités actives" (A psicologia das minorias ativas), Moscovici (1979) esclarece o modelo teórico
subjacente às teorias da influência social que domina a psicologia social. Esse modelo considera os sistemas sociais como estáticos
e ótimos, integrando os pesquisadores a esses sistemas de forma não crítica. Assim, a normalidade e a funcionalidade são
valorizadas, enquanto a marginalização é desvalorizada como disfuncional.
Nesse quadro, os processos de influência social servem para o controle social, garantindo trocas estáveis de acordo com as regras.
Por isso, focam na padronização e redução da marginalização, ocultando relações de poder. A influência é baseada na
ancestralidade do status social, onde indivíduos ou grupos superiores influenciam os inferiores.
Esse modelo não contempla a teoria da influência minoritária, pois reduz a influência ao exercício do poder e busca o controle
social em um sistema estável. No entanto, alguns estudos, como a teoria do "crédito idiossincrático" de Hollander, permitem uma
aparente mudança social sem quebrar fundamentalmente o sistema.
Interessa-nos estudar a difusão de inovações minoritárias que rompem com o sistema social. Uma mudança de perspectiva é
necessária para integrar os processos de influência minoritária em um modelo geral de influência social, como proposto pelo
modelo "genético" ou interacionista de Moscovici.
2. O MODELO "GENÉTICO"
No modelo genético, os sistemas sociais não são absolutos, mas resultam do confronto e da negociação entre diferentes agentes
sociais. As trocas, mesmo com status assimétrico, implicam reciprocidade, assegurando a cada agente um potencial de ação sobre
o sistema. A aparente estabilidade de um sistema é apenas um momento de um processo contínuo de mudança social, criação e
redução de divergências. As normas que categorizam as respostas como normais ou marginalizadas não são entidades autônomas,
mas o resultado de negociações conjunturais entre indivíduos e grupos. A marginalização perde seu caráter negativo e torna-se
adaptativa quando está ativa.
As relações de influência não se reduzem mais ao controle social, mas incluem processos de inovação, uma vez que a sobrevivência
do sistema social depende de suas transformações. A difusão minoritária da inovação não só é possível nesse quadro, como se
torna teoricamente necessária; aqueles que adotam essa abordagem se concentram em tais processos.
A difusão minoritária de uma inovação, mesmo em um contexto com assimetrias de status social, não se reduz ao exercício do
poder. As variáveis invocadas dizem respeito às negociações entre agentes sociais. Os processos de influência não são mais o
resultado necessário de uma composição de poder, mas de interações e negociações entre "parceiros". Mesmo sem poder, uma
entidade social pode exercer influência teórica.
3. A TEORIA DA CONSISTÊNCIA DE MOSCOVICI
Se a influência de uma fonte minoritária não pode ser baseada em uma relação de poder, uma vez que está lhe é desfavorável, em
que ela pode se basear? Moscovici propõe uma completa mudança de perspectiva: a fonte de influência minoritária está nos
significados que emergem do comportamento dos acionistas minoritários durante reuniões e negociações com potenciais
1
Feito por MatyBuda
, destinatários. O ponto chave não é a natureza dos conteúdos alternativos, mas a organização e estrutura desses conteúdos. A
noção de "estilos comportamentais" desempenha um papel decisivo.
Para Moscovici, o estilo de comportamento é fundamental. Comportamentos, como palavras em uma língua, só adquirem sentido
através da intenção do emissor e da interpretação do receptor. A pessoa ou grupo minoritário deve:
1. Use sinais de forma sistemática e consistente para evitar mal-entendidos.
2. Mantenha a consistência entre comportamentos e significados durante a interação.
3. Mostre um tom afirmativo e confiante e expresse firmeza em seu comportamento.
Uma minoria pode se tornar influente pela consistência de seu estilo comportamental. Essa consistência se distingue da
inconsistência por vários parâmetros:
Síncrono: A consistência mostra um consenso intra-minoritário, ou seja, uma unanimidade na expressão de posições por todos os
membros minoritários. Isso informa os destinatários sobre a definição de um estímulo e sobre o compromisso da minoria com sua
posição.
Compromisso e sacrifícios: A minoria demonstra seu compromisso através de sacrifícios pessoais, enfrentando represálias ou
ridicularização, o que valoriza a alternativa proposta.
Autonomia: A minoria mostra sua capacidade de caminhar fora do conformismo, servindo de exemplo de autonomia para os
receptores.
A consistência caracteriza comportamentos definidos de forma firme e consistente em diferentes situações e momentos. Dada a
importância dessa função, as primeiras ilustrações experimentais operacionalizaram a consistência das minorias para refletir sua
influência.
4. OPERACIONALIZAÇÃO DA CONSISTÊNCIA
Em um primeiro experimento (Faucheux e Moscovici, 1967), os sujeitos tiveram que escolher entre as dimensões geométricas da
figura (como tamanho e cor). Um cúmplice do experimentador, colocado em grupos de quatro ou cinco sujeitos experimentais,
sempre respondia "cor" em todos os itens. Os resultados mostraram um aumento nas escolhas de "cores" pelos sujeitos
experimentais.
Em outro experimento de Moscovici, Lage e Naffrechoux (1969), utilizou-se um paradigma clássico. Os sujeitos foram solicitados
a nomear a cor de uma lâmina azul. Sob certas condições, dois cúmplices do experimentador responderam "verde" de forma
consistente, enquanto em outros responderam apenas em 2/3 dos itens (condição inconsistente). Os resultados mostraram que a
influência das minorias é maior quando os cúmplices são consistentes.
Esses experimentos ilustram a importância da consistência na influência das minorias. A coerência, tanto síncrona (unanimidade
intraminoritária) quanto diacrônica (coerência e firmeza ao longo do tempo), é crucial para que uma minoria possa influenciar. A
repetição constante e sistemática de uma resposta pode ter uma influência significativa, especialmente em contextos em que as
respostas são menos conscientemente controladas.
Em síntese, a consistência no comportamento e nas posições de uma minoria pode levar a uma influência efetiva, destacando a
importância da coerência e do comprometimento no processo de influência social.
5. COERÊNCIA E CONFLITO SOCIAL
Por definição, uma posição minoritária expressa a diferença entre os comportamentos e julgamentos da minoria e as normas
dominantes. No entanto, nem todas as diferenças procuram influenciar; em muitos casos, a diferença indica apenas afastamento
ou marginalização. A minoria ativa distingue-se por sua consistência em expressar sua diferença, tornando-se um contramodelo
coerente ao dominante.
A coerência dá à minoria um poder essencial: gerar um conflito social insolúvel, uma vez que se recusa a negociar compromissos
com o modelo dominante. Isso causa instabilidade social e evidencia a falibilidade do modelo dominante, criando incertezas que
podem ser resolvidas adaptando-se às contra-normas propostas.
2
Feito por MatyBuda
Gabriel Mugny (1981)
Resumo:
CAPÍTULO UM: COMO É POSSÍVEL A INFLUÊNCIA DAS MINORIAS?
Interessa-nos abordar essa questão com um duplo sentido. Primeiramente, exploraremos a evolução do trabalho sobre influência
social. Durante décadas, muitos não consideraram a possibilidade de que as minorias pudessem ser influentes. Perguntamo-nos
por que isso tem acontecido, sob quais pressupostos teóricos e, sobretudo, por meio de quais postulados a influência minoritária
tem sido teoricamente possível.
Uma vez estabelecidos os pré-requisitos teóricos de uma teoria da influência minoritária, podemos nos concentrar diretamente
nesta questão: como e por meio de quais mecanismos as minorias, em vez de sucumbir à sua própria marginalização, permanecem
ativas em uma sociedade e transformam outras, conseguindo incorporar seus projetos à história dessa sociedade?
1. O MODELO "FUNCIONALISTA"
Em "La Psychologie des minorités actives" (A psicologia das minorias ativas), Moscovici (1979) esclarece o modelo teórico
subjacente às teorias da influência social que domina a psicologia social. Esse modelo considera os sistemas sociais como estáticos
e ótimos, integrando os pesquisadores a esses sistemas de forma não crítica. Assim, a normalidade e a funcionalidade são
valorizadas, enquanto a marginalização é desvalorizada como disfuncional.
Nesse quadro, os processos de influência social servem para o controle social, garantindo trocas estáveis de acordo com as regras.
Por isso, focam na padronização e redução da marginalização, ocultando relações de poder. A influência é baseada na
ancestralidade do status social, onde indivíduos ou grupos superiores influenciam os inferiores.
Esse modelo não contempla a teoria da influência minoritária, pois reduz a influência ao exercício do poder e busca o controle
social em um sistema estável. No entanto, alguns estudos, como a teoria do "crédito idiossincrático" de Hollander, permitem uma
aparente mudança social sem quebrar fundamentalmente o sistema.
Interessa-nos estudar a difusão de inovações minoritárias que rompem com o sistema social. Uma mudança de perspectiva é
necessária para integrar os processos de influência minoritária em um modelo geral de influência social, como proposto pelo
modelo "genético" ou interacionista de Moscovici.
2. O MODELO "GENÉTICO"
No modelo genético, os sistemas sociais não são absolutos, mas resultam do confronto e da negociação entre diferentes agentes
sociais. As trocas, mesmo com status assimétrico, implicam reciprocidade, assegurando a cada agente um potencial de ação sobre
o sistema. A aparente estabilidade de um sistema é apenas um momento de um processo contínuo de mudança social, criação e
redução de divergências. As normas que categorizam as respostas como normais ou marginalizadas não são entidades autônomas,
mas o resultado de negociações conjunturais entre indivíduos e grupos. A marginalização perde seu caráter negativo e torna-se
adaptativa quando está ativa.
As relações de influência não se reduzem mais ao controle social, mas incluem processos de inovação, uma vez que a sobrevivência
do sistema social depende de suas transformações. A difusão minoritária da inovação não só é possível nesse quadro, como se
torna teoricamente necessária; aqueles que adotam essa abordagem se concentram em tais processos.
A difusão minoritária de uma inovação, mesmo em um contexto com assimetrias de status social, não se reduz ao exercício do
poder. As variáveis invocadas dizem respeito às negociações entre agentes sociais. Os processos de influência não são mais o
resultado necessário de uma composição de poder, mas de interações e negociações entre "parceiros". Mesmo sem poder, uma
entidade social pode exercer influência teórica.
3. A TEORIA DA CONSISTÊNCIA DE MOSCOVICI
Se a influência de uma fonte minoritária não pode ser baseada em uma relação de poder, uma vez que está lhe é desfavorável, em
que ela pode se basear? Moscovici propõe uma completa mudança de perspectiva: a fonte de influência minoritária está nos
significados que emergem do comportamento dos acionistas minoritários durante reuniões e negociações com potenciais
1
Feito por MatyBuda
, destinatários. O ponto chave não é a natureza dos conteúdos alternativos, mas a organização e estrutura desses conteúdos. A
noção de "estilos comportamentais" desempenha um papel decisivo.
Para Moscovici, o estilo de comportamento é fundamental. Comportamentos, como palavras em uma língua, só adquirem sentido
através da intenção do emissor e da interpretação do receptor. A pessoa ou grupo minoritário deve:
1. Use sinais de forma sistemática e consistente para evitar mal-entendidos.
2. Mantenha a consistência entre comportamentos e significados durante a interação.
3. Mostre um tom afirmativo e confiante e expresse firmeza em seu comportamento.
Uma minoria pode se tornar influente pela consistência de seu estilo comportamental. Essa consistência se distingue da
inconsistência por vários parâmetros:
Síncrono: A consistência mostra um consenso intra-minoritário, ou seja, uma unanimidade na expressão de posições por todos os
membros minoritários. Isso informa os destinatários sobre a definição de um estímulo e sobre o compromisso da minoria com sua
posição.
Compromisso e sacrifícios: A minoria demonstra seu compromisso através de sacrifícios pessoais, enfrentando represálias ou
ridicularização, o que valoriza a alternativa proposta.
Autonomia: A minoria mostra sua capacidade de caminhar fora do conformismo, servindo de exemplo de autonomia para os
receptores.
A consistência caracteriza comportamentos definidos de forma firme e consistente em diferentes situações e momentos. Dada a
importância dessa função, as primeiras ilustrações experimentais operacionalizaram a consistência das minorias para refletir sua
influência.
4. OPERACIONALIZAÇÃO DA CONSISTÊNCIA
Em um primeiro experimento (Faucheux e Moscovici, 1967), os sujeitos tiveram que escolher entre as dimensões geométricas da
figura (como tamanho e cor). Um cúmplice do experimentador, colocado em grupos de quatro ou cinco sujeitos experimentais,
sempre respondia "cor" em todos os itens. Os resultados mostraram um aumento nas escolhas de "cores" pelos sujeitos
experimentais.
Em outro experimento de Moscovici, Lage e Naffrechoux (1969), utilizou-se um paradigma clássico. Os sujeitos foram solicitados
a nomear a cor de uma lâmina azul. Sob certas condições, dois cúmplices do experimentador responderam "verde" de forma
consistente, enquanto em outros responderam apenas em 2/3 dos itens (condição inconsistente). Os resultados mostraram que a
influência das minorias é maior quando os cúmplices são consistentes.
Esses experimentos ilustram a importância da consistência na influência das minorias. A coerência, tanto síncrona (unanimidade
intraminoritária) quanto diacrônica (coerência e firmeza ao longo do tempo), é crucial para que uma minoria possa influenciar. A
repetição constante e sistemática de uma resposta pode ter uma influência significativa, especialmente em contextos em que as
respostas são menos conscientemente controladas.
Em síntese, a consistência no comportamento e nas posições de uma minoria pode levar a uma influência efetiva, destacando a
importância da coerência e do comprometimento no processo de influência social.
5. COERÊNCIA E CONFLITO SOCIAL
Por definição, uma posição minoritária expressa a diferença entre os comportamentos e julgamentos da minoria e as normas
dominantes. No entanto, nem todas as diferenças procuram influenciar; em muitos casos, a diferença indica apenas afastamento
ou marginalização. A minoria ativa distingue-se por sua consistência em expressar sua diferença, tornando-se um contramodelo
coerente ao dominante.
A coerência dá à minoria um poder essencial: gerar um conflito social insolúvel, uma vez que se recusa a negociar compromissos
com o modelo dominante. Isso causa instabilidade social e evidencia a falibilidade do modelo dominante, criando incertezas que
podem ser resolvidas adaptando-se às contra-normas propostas.
2
Feito por MatyBuda