PSICOLOGIA SOCIAL DAS RELAÇÕES INTERGRUPAIS
Carmen Gómez Berrocal (2006)
Resumo:
1. INTRODUÇÃO
Nas Ciências Sociais, a escolha de um tema de estudo muitas vezes responde a uma necessidade social. O interesse científico é
proporcional à importância desse tema para o desenvolvimento, bem-estar ou melhoria da qualidade de vida do indivíduo.
A análise das relações intergrupais pela Psicologia Social tem sido uma questão central desde meados do século XX. A razão
fundamental para esse interesse está na relevância desse tipo de relacionamento em nosso cotidiano. Todos sabemos como as
nossas características físicas (ser homem ou mulher, a cor da nossa pele), o nosso nível de educação e formação, a profissão em
que estamos envolvidos ou o discurso ou dialeto com que nos comunicamos influenciam a avaliação e o tipo de interações que
realizamos com outras pessoas ou grupos.
Ainda hoje, nas sociedades modernas e ainda mais em outras culturas, o sexo (um indicador de pertencimento social) pode orientar
a análise, a valorização e a forma como nos comportamos em relação a outra pessoa. Por exemplo, as expectativas da sociedade
sobre o "comportamento apropriado" diferem para ambos os sexos. Em sociedades mais tradicionais, espera-se que os homens
sejam independentes e orientados para realizações utilitárias, enquanto as mulheres devem ser altruístas e interessadas nos
outros.
Além disso, no noticiário nacional ou internacional da imprensa diária não é raro encontrar manchetes como: "O exército israelense
suspende o toque de recolher em cinco cidades palestinas" ou "A nova lei de reforma da educação confronta a Igreja Católica e o
governo". Esses exemplos mostram como as relações entre grupos permeiam nosso cotidiano de forma significativa.
Do ponto de vista científico, o estudo desse tema requer uma definição dele. Nesse sentido, uma questão inicial é delimitar como
a Psicologia Social entende as relações intergrupais. Como Turner e Giles (1981) apontaram, uma maneira de restringir essa área
de estudo é especificar os tópicos ou problemas que ela aborda.
Assim, a Psicologia Social das Relações Intergrupais tem estudado os efeitos do contato social entre grupos, os determinantes e
causas do conflito social entre grupos étnicos, religiosos e políticos, e estratégias para reduzir o conflito entre grupos e categorias
sociais. O denominador comum desses tópicos nos dá uma ideia do que queremos dizer quando falamos de relações intergrupais
na Psicologia Social (Turner & Giles, 1981, p.3):
- A divisão da sociedade humana em diferentes grupos sociais e suas inter-relações, ou seja, as ações dos membros de um grupo
social em relação aos membros de outros grupos sociais.
- As ações coletivas de um grande número de pessoas.
- Os conflitos, tensões e antipatias sociais associados aos pertences grupais.
- As estratégias utilizadas para evitar, reduzir e/ou resolver tais conflitos.
O estudo psicossocial das relações intergrupais enfoca o comportamento entre grupos, definido como conjuntos de indivíduos que
interagem regularmente e compartilham objetivos. A Psicologia Social busca compreender como as pessoas pensam, sentem e
agem diante de situações que destacam seu pertencimento a grupos.
Nos estudos sobre relações entre raças, etnias ou sexos, utilizamos o conceito de categoria social para nos referirmos ao
sentimento de pertencimento compartilhado. Mais do que relações entre grupos, falamos de comportamento intergrupal, que
envolve ações coletivas, mas nem sempre requer a interação de muitos. Um encontro entre duas pessoas pode ser intergrupal se
uma categorização "nós" "você" se destacar.
Por exemplo, em um contexto educacional, a interação entre uma criança espanhola e outra de nacionalidade diferente é
intergrupal se ambas estiverem cientes de suas respectivas culturas. Em uma escola com crianças de diferentes nacionalidades, as
reuniões de recreio nem sempre são intergrupais; às vezes são interações ponto a ponto.
Turner, Giles, Huici e Gómez Berrocal enfatizam que o comportamento intergrupal reflete a sociabilidade humana, que pode variar
do altruísmo à desumanização. As teorias psicossociais do comportamento intergrupal estão interessadas em compreender
comportamentos extremos com consequências negativas para a interação social, como preconceito, discriminação e exclusão
1
Feito por MatyBuda
, social. Essa abordagem levou a associar a Psicologia Social das relações entre grupos quase que exclusivamente ao estudo do
conflito intergrupal.
Este capítulo revisa as contribuições da Psicologia Social para a compreensão das relações entre grupos, destacando teorias que
analisam processos sociais e psicológicos. Examina os fatores psicossociais facilitadores de conflitos, como preconceito e
discriminação, e aborda a questão do preconceito e do racismo, descrevendo os tipos de racismo e o papel dos processos
intergrupais nesses conflitos.
2. PSICOLOGIA SOCIAL E RELAÇÕES INTERGRUPAIS
O objetivo desta seção é revisar as características distintivas do estudo realizado pela Psicologia Social sobre as relações
intergrupais. Enfrentamos um obstáculo inicial ao revisar a literatura sobre o tema: não existe uma teoria única na Psicologia Social
sobre as relações intergrupais. Para esclarecer essa questão, revisamos os aspectos que têm favorecido a diversidade teórica em
nossa disciplina.
Para classificar as diferentes teorias, utilizamos um critério clássico que envolve duas dimensões. A primeira permite diferenciar
as explicações teóricas de acordo com a abordagem ou nível de análise que adotam: abordagem individual versus abordagem
intergrupal. A segunda dimensão diferencia as teorias de acordo com a natureza (cognitiva ou motivacional) do processo
fundamental para a compreensão das relações entre os diferentes grupos.
2.1. NÍVEL DE ANÁLISE E TÓPICOS ESTUDADOS NAS TEORIAS DO COMPORTAMENTO INTERGRUPAL
O estudo do comportamento intergrupal é ideal para a análise psicossocial, pois requer a compreensão da interação entre
processos societais (políticos, econômicos, culturais) e psicológicos (cognitivos, motivacionais, afetivos). Por exemplo, para
compreender as relações entre ciganos e não ciganos na Espanha, é essencial considerar fatores psicológicos e diferenças culturais,
de poder e numéricas entre os grupos.
Embora o comportamento intergrupal seja inerentemente psicossocial, as teorias têm frequentemente focado em processos
individuais ou sociais. A Psicologia Social Contemporânea enfatiza tanto os processos individuais quanto o contexto social,
entendendo que ambos interagem e influenciam uns aos outros. No entanto, no passado, um ou outro tipo de processo era
priorizado para explicar as relações intergrupais e o conflito resultante.
2.1.1. Teorias com abordagem individual
Esse tipo de teoria explica o conflito entre grupos como resultado da estrutura psíquica dos indivíduos (abordagem psicanalítica)
ou de seus esquemas cognitivos. Durante as décadas de 1940 e 1950, a ascensão da ideologia nazista e a descoberta dos campos
de concentração influenciaram profundamente a pesquisa psicossocial sobre conflitos intergrupais. A Psicologia Social, através do
paradigma psicanalítico, buscou compreender e prevenir barbaridades semelhantes.
Um exemplo clássico desse período é "A Personalidade Autoritária", de Adorno e sua equipe (1950), que propôs que as atitudes
sociais de um indivíduo refletem tendências profundas de sua personalidade formadas na infância, especialmente no seio familiar.
A metodologia de Adorno incluiu a avaliação de atitudes em relação aos judeus, etnocentrismo e autoritarismo em uma amostra
de 200 indivíduos brancos não judeus. Eles descobriram que o pensamento preconceituoso e as visões rígidas sobre a disciplina
estavam correlacionados.
Em uma segunda fase, eles entrevistaram 150 pessoas com escores extremos nas fases anteriores, usando técnicas projetivas. Os
resultados permitiram descrever componentes da personalidade autoritária, como a rigidez cognitiva e a repressão de sentimentos
negativos, que favoreciam atitudes preconceituosas e autoritárias. Segundo Adorno, indivíduos autoritários deslocavam seus
sentimentos de culpa para grupos externos, tornando-os bodes expiatórios.
A teoria de Adorno sustenta que a personalidade autoritária é a causa do preconceito intergrupal, caracterizado pelo autoritarismo
e por um estilo cognitivo rígido. Embora a metodologia tenha sido criticada, a hipótese central foi confirmada: indivíduos mais
etnocêntricos são mais propensos a expressar atitudes negativas em relação a grupos externos e atitudes positivas em relação a
seu próprio grupo.
2
Feito por MatyBuda
Carmen Gómez Berrocal (2006)
Resumo:
1. INTRODUÇÃO
Nas Ciências Sociais, a escolha de um tema de estudo muitas vezes responde a uma necessidade social. O interesse científico é
proporcional à importância desse tema para o desenvolvimento, bem-estar ou melhoria da qualidade de vida do indivíduo.
A análise das relações intergrupais pela Psicologia Social tem sido uma questão central desde meados do século XX. A razão
fundamental para esse interesse está na relevância desse tipo de relacionamento em nosso cotidiano. Todos sabemos como as
nossas características físicas (ser homem ou mulher, a cor da nossa pele), o nosso nível de educação e formação, a profissão em
que estamos envolvidos ou o discurso ou dialeto com que nos comunicamos influenciam a avaliação e o tipo de interações que
realizamos com outras pessoas ou grupos.
Ainda hoje, nas sociedades modernas e ainda mais em outras culturas, o sexo (um indicador de pertencimento social) pode orientar
a análise, a valorização e a forma como nos comportamos em relação a outra pessoa. Por exemplo, as expectativas da sociedade
sobre o "comportamento apropriado" diferem para ambos os sexos. Em sociedades mais tradicionais, espera-se que os homens
sejam independentes e orientados para realizações utilitárias, enquanto as mulheres devem ser altruístas e interessadas nos
outros.
Além disso, no noticiário nacional ou internacional da imprensa diária não é raro encontrar manchetes como: "O exército israelense
suspende o toque de recolher em cinco cidades palestinas" ou "A nova lei de reforma da educação confronta a Igreja Católica e o
governo". Esses exemplos mostram como as relações entre grupos permeiam nosso cotidiano de forma significativa.
Do ponto de vista científico, o estudo desse tema requer uma definição dele. Nesse sentido, uma questão inicial é delimitar como
a Psicologia Social entende as relações intergrupais. Como Turner e Giles (1981) apontaram, uma maneira de restringir essa área
de estudo é especificar os tópicos ou problemas que ela aborda.
Assim, a Psicologia Social das Relações Intergrupais tem estudado os efeitos do contato social entre grupos, os determinantes e
causas do conflito social entre grupos étnicos, religiosos e políticos, e estratégias para reduzir o conflito entre grupos e categorias
sociais. O denominador comum desses tópicos nos dá uma ideia do que queremos dizer quando falamos de relações intergrupais
na Psicologia Social (Turner & Giles, 1981, p.3):
- A divisão da sociedade humana em diferentes grupos sociais e suas inter-relações, ou seja, as ações dos membros de um grupo
social em relação aos membros de outros grupos sociais.
- As ações coletivas de um grande número de pessoas.
- Os conflitos, tensões e antipatias sociais associados aos pertences grupais.
- As estratégias utilizadas para evitar, reduzir e/ou resolver tais conflitos.
O estudo psicossocial das relações intergrupais enfoca o comportamento entre grupos, definido como conjuntos de indivíduos que
interagem regularmente e compartilham objetivos. A Psicologia Social busca compreender como as pessoas pensam, sentem e
agem diante de situações que destacam seu pertencimento a grupos.
Nos estudos sobre relações entre raças, etnias ou sexos, utilizamos o conceito de categoria social para nos referirmos ao
sentimento de pertencimento compartilhado. Mais do que relações entre grupos, falamos de comportamento intergrupal, que
envolve ações coletivas, mas nem sempre requer a interação de muitos. Um encontro entre duas pessoas pode ser intergrupal se
uma categorização "nós" "você" se destacar.
Por exemplo, em um contexto educacional, a interação entre uma criança espanhola e outra de nacionalidade diferente é
intergrupal se ambas estiverem cientes de suas respectivas culturas. Em uma escola com crianças de diferentes nacionalidades, as
reuniões de recreio nem sempre são intergrupais; às vezes são interações ponto a ponto.
Turner, Giles, Huici e Gómez Berrocal enfatizam que o comportamento intergrupal reflete a sociabilidade humana, que pode variar
do altruísmo à desumanização. As teorias psicossociais do comportamento intergrupal estão interessadas em compreender
comportamentos extremos com consequências negativas para a interação social, como preconceito, discriminação e exclusão
1
Feito por MatyBuda
, social. Essa abordagem levou a associar a Psicologia Social das relações entre grupos quase que exclusivamente ao estudo do
conflito intergrupal.
Este capítulo revisa as contribuições da Psicologia Social para a compreensão das relações entre grupos, destacando teorias que
analisam processos sociais e psicológicos. Examina os fatores psicossociais facilitadores de conflitos, como preconceito e
discriminação, e aborda a questão do preconceito e do racismo, descrevendo os tipos de racismo e o papel dos processos
intergrupais nesses conflitos.
2. PSICOLOGIA SOCIAL E RELAÇÕES INTERGRUPAIS
O objetivo desta seção é revisar as características distintivas do estudo realizado pela Psicologia Social sobre as relações
intergrupais. Enfrentamos um obstáculo inicial ao revisar a literatura sobre o tema: não existe uma teoria única na Psicologia Social
sobre as relações intergrupais. Para esclarecer essa questão, revisamos os aspectos que têm favorecido a diversidade teórica em
nossa disciplina.
Para classificar as diferentes teorias, utilizamos um critério clássico que envolve duas dimensões. A primeira permite diferenciar
as explicações teóricas de acordo com a abordagem ou nível de análise que adotam: abordagem individual versus abordagem
intergrupal. A segunda dimensão diferencia as teorias de acordo com a natureza (cognitiva ou motivacional) do processo
fundamental para a compreensão das relações entre os diferentes grupos.
2.1. NÍVEL DE ANÁLISE E TÓPICOS ESTUDADOS NAS TEORIAS DO COMPORTAMENTO INTERGRUPAL
O estudo do comportamento intergrupal é ideal para a análise psicossocial, pois requer a compreensão da interação entre
processos societais (políticos, econômicos, culturais) e psicológicos (cognitivos, motivacionais, afetivos). Por exemplo, para
compreender as relações entre ciganos e não ciganos na Espanha, é essencial considerar fatores psicológicos e diferenças culturais,
de poder e numéricas entre os grupos.
Embora o comportamento intergrupal seja inerentemente psicossocial, as teorias têm frequentemente focado em processos
individuais ou sociais. A Psicologia Social Contemporânea enfatiza tanto os processos individuais quanto o contexto social,
entendendo que ambos interagem e influenciam uns aos outros. No entanto, no passado, um ou outro tipo de processo era
priorizado para explicar as relações intergrupais e o conflito resultante.
2.1.1. Teorias com abordagem individual
Esse tipo de teoria explica o conflito entre grupos como resultado da estrutura psíquica dos indivíduos (abordagem psicanalítica)
ou de seus esquemas cognitivos. Durante as décadas de 1940 e 1950, a ascensão da ideologia nazista e a descoberta dos campos
de concentração influenciaram profundamente a pesquisa psicossocial sobre conflitos intergrupais. A Psicologia Social, através do
paradigma psicanalítico, buscou compreender e prevenir barbaridades semelhantes.
Um exemplo clássico desse período é "A Personalidade Autoritária", de Adorno e sua equipe (1950), que propôs que as atitudes
sociais de um indivíduo refletem tendências profundas de sua personalidade formadas na infância, especialmente no seio familiar.
A metodologia de Adorno incluiu a avaliação de atitudes em relação aos judeus, etnocentrismo e autoritarismo em uma amostra
de 200 indivíduos brancos não judeus. Eles descobriram que o pensamento preconceituoso e as visões rígidas sobre a disciplina
estavam correlacionados.
Em uma segunda fase, eles entrevistaram 150 pessoas com escores extremos nas fases anteriores, usando técnicas projetivas. Os
resultados permitiram descrever componentes da personalidade autoritária, como a rigidez cognitiva e a repressão de sentimentos
negativos, que favoreciam atitudes preconceituosas e autoritárias. Segundo Adorno, indivíduos autoritários deslocavam seus
sentimentos de culpa para grupos externos, tornando-os bodes expiatórios.
A teoria de Adorno sustenta que a personalidade autoritária é a causa do preconceito intergrupal, caracterizado pelo autoritarismo
e por um estilo cognitivo rígido. Embora a metodologia tenha sido criticada, a hipótese central foi confirmada: indivíduos mais
etnocêntricos são mais propensos a expressar atitudes negativas em relação a grupos externos e atitudes positivas em relação a
seu próprio grupo.
2
Feito por MatyBuda