UMA PERSPECTIVA PSICOSSOCIAL SOBRE ESTRATÉGIAS
POLITIZAÇÃO EM CONFLITOS ASSIMÉTRICOS
Liliana Edith Ferrari - Cláudia Iris Bazán (2014)
Resumo:
1. INTRODUÇÃO
Neste artigo, aprofundamo-nos nas dinâmicas de politização e ação política de grupos em conflito, em contraposição às estruturas
políticas convencionais. Concentramos nossa análise em dois casos significativos: a empresa recuperada IMPA em Buenos Aires e
a cooperativa CorreCamino formada por ex-cartoneros em Villa Crespo. Esses exemplos se destacam por suas iniciativas de
autogestão e cooperação, que surgiram em resposta a crises econômicas e sociais.
O IMPA, localizado em Almagro, tem sido palco de prolongadas lutas por espaço e reconhecimento, dando origem a projetos
educacionais como o Bacharelado Popular e a Universidade dos Trabalhadores, além da criação do Museu IMPA de Cultura do
Trabalho. Por outro lado, o CorreCamino se dedica à reciclagem de resíduos sólidos, preenchendo um vazio deixado pelas políticas
municipais.
Nossa abordagem metodológica aborda as complexidades éticas e epistemológicas do estudo de movimentos conflituosos,
buscando compreender e ampliar os discursos subjetivos desses grupos. Somos inspirados a entender como essas iniciativas
desafiam e complementam as políticas públicas estabelecidas, explorando novas formas de participação política direta e
alternativa.
Este artigo tem como objetivo descrever esses casos como catalisadores para refletir sobre os diferentes modos de fazer política a
partir de uma perspectiva da psicologia social, destacando a agêncialidade e a resistência desses grupos frente às estruturas
dominantes.
2. MÉTODO
O desenho de nossa pesquisa concentra-se em um estudo de caso múltiplo intencionalmente selecionado, que revela relações
sociais assimétricas marcadas por desigualdades econômicas, culturais e políticas. Utilizamos uma abordagem qualitativa com
técnicas como entrevistas participativas e observações etnográficas no âmbito da Pesquisa Ação Participativa (PAR),
complementada pela análise documental. Nossa análise abrange tanto o conteúdo quanto o discurso, buscando não apenas
estudar, mas também participar e engajar-se em uma práxis reflexivo-ação-reflexiva, orientada para a transformação social.
Nosso objetivo é destacar as práticas inovadoras de movimentos que resistem a condições sociais desfavorecidas, analisando
aspectos como ação política, representatividade e potencial emancipatório dos casos estudados em seus contextos políticos e
econômicos.
3. MINORIAS ACTIVAS E A SUA FORMA DE ACÇÃO POLÍTICA
Nesta seção, exploramos os conceitos e teorias desenvolvidos por Moscovici e sua equipe de pesquisa sobre a dinâmica social da
estabilidade-transformação-inovação, focalizando sua concepção de funcionamento social e a teoria das minorias ativas. Moscovici
analisa como as normas sociais interagem com o consenso e o conflito, propondo uma visão de ação política onde as minorias
desempenham um papel crucial. Essa abordagem não apenas caracteriza as complexas sociedades democráticas de sua época,
mas também aborda os processos de reconhecimento e desconhecimento das diferenças.
Para refletir sobre a ação política contemporânea a partir da psicologia social, adotamos o desenvolvimento de Moscovici em
termos de mudança e estabilidade social. Destacamos seu modelo dualista que combina o Funcionalismo e o Modelo Genético,
complementares em alguns aspectos e exclusivos em outros, para entender como minorias ativas impulsionam a transformação
por meio da consistência interna e de sua capacidade de desafiar as normas estabelecidas.
O modelo de Moscovici também examina a relação entre consenso e conflito, argumentando que tanto maiorias quanto minorias
devem negociar concessões para chegar a acordos e reduzir conflitos. No entanto, minorias contranômicas, que desafiam
radicalmente as normas sociais, podem ser excluídas desse processo político, ao contrário das minorias ativas que buscam expandir
a cidadania e os direitos para grupos marginalizados.
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Feito por MatyBuda
, Historicamente, os casos que estudamos surgiram de crises estruturais e econômicas, como a Cooperativa IMPA, afetada pelo
declínio do mercado de trabalho e fechamento de fábricas, e a Cooperativa El CorreCamino, formada por pessoas socialmente
excluídas que buscam se integrar por meio da reciclagem. Esses grupos enfrentam desafios comuns de exclusão e vulnerabilidade,
mas também demonstram resiliência ao reconstruir espaços de trabalho e comunitários que transcendem suas condições
desfavorecidas.
3.1. QUAL A REGRA A SER PRORROGADA EM CADA CASO?
Nos últimos 15 anos, o IMPA enfrentou o desafio fundamental relacionado à propriedade privada e sua vinculação ao direito ao
trabalho. Sua luta pelo destino e uso da propriedade entrou em conflito com os interesses de vários governos da Cidade de Buenos
Aires e as expectativas dos trabalhadores. Por outro lado, a El CorreCamino enfrenta o desafio de operar como uma cooperativa
autônoma na reciclagem de resíduos, em contraste com o papel intermediário atribuído pelo governo aos cartoneros na coleta de
resíduos não contratada.
Ambos os processos geraram críticas aos sucessivos governos da Cidade, mas também fortaleceram o diálogo com a comunidade
local e múltiplas instâncias sociais. O IMPA tem utilizado estratégias que desafiam a legalidade atual das falências de empresas e
tem enfatizado a identidade de seus trabalhadores para buscar consensos. Além disso, desenvolveu projetos educacionais e
culturais significativos, como o bacharelado popular, a Universidade dos Trabalhadores e o Museu IMPA da Cultura do Trabalho.
Quanto ao El CorreCamino, seus membros, liderados por seu presidente, transformaram sua identidade de cartoneros em
"promotores ambientais", buscando reconhecimento para estabelecer centros de reciclagem que não dependam de subsídios ou
empregos assistenciais. Eles estabeleceram alianças com a comunidade local e outras instituições do bairro para promover práticas
de reciclagem e conscientização ambiental através de vários meios, como rádios, palestras em escolas e seminários universitários.
Ambos os casos compartilham uma oposição às políticas tradicionais de assistência social, embora com abordagens diferentes: o
IMPA enfatiza a integração por meio da seguridade social universalista, enquanto El CorreCamino inclina-se para a autogestão
coletiva e desreguladora.
3.2. EM QUE MEDIDA O CONSENSO RELUTA EM TAL TRANSFORMAÇÃO?
No contexto de consensos relutantes, é crucial analisar historicamente como cada um desses grupos vivenciou a sociedade antes
da crise e expulsão dos anos 1990. O IMPA reflete as vicissitudes típicas da classe trabalhadora argentina, desafiando o desemprego
assistido ao redefinir sua tradição operária. Sua luta é profundamente pessoal e ligada à perda da dignidade, buscando ser
reconhecida como uma opção legítima e única no sistema.
Por outro lado, El CorreCamino busca regular identidades e práticas em um empreendimento coletivo, enfatizando sua inclusão e
aceitação pela função social que desempenham. Eles não buscam o consenso prévio que os define como marginais e perigosos,
mas se distanciam de suas histórias passadas para se concentrar em seu serviço atual à comunidade. Esse processo de construção
da coerência se manifesta em seu lema de "reciclar-nos primeiro", destacando sua transformação e compromisso com uma nova
identidade.
4. A AÇÃO POLÍTICA A PARTIR DA TEORIA DA REPRESENTAÇÃO
Nas últimas décadas do século passado, houve um crescente reconhecimento do declínio dos sistemas representativos, o que
abriu caminho para novas concepções políticas e linguísticas no quadro pós-moderno. Essa abordagem questiona ideias
tradicionais de política e enfatiza a construção discursiva da realidade e das identidades sociais. Essa transformação influenciou
teorias como a de Laclau e Mouffe (1987), que exploram a politização das ações sociais e a criação de sujeitos por meio de relações
políticas dinâmicas.
A teoria da representação, enraizada na concepção moderna de política, tem sido fundamental para compreender como discursos
e práticas constroem e mantêm ordens sociais. No entanto, o pensamento pós-moderno tem desafiado essa ideia ao questionar a
existência de uma realidade objetiva fora do discurso, promovendo a ideia de que o social é um efeito de práticas políticas e
discursivas.
O IMPA tem exemplificado a politização de diferentes formas por meio de suas ações, destacando a criação de um Museu como
forma de narrar a história de seus trabalhadores a partir de sua própria perspectiva, desafiando interpretações externas. Além
disso, promoveram legislação que protege a desapropriação de empresas recuperadas, ao mesmo tempo em que rejeitam a
propriedade privada em favor do uso comunitário e educativo do espaço. Em contrapartida, El CorreCamino busca se integrar à
comunidade por meio da legalidade estabelecida, valendo-se de leis como a Lixo Zero para legitimar suas práticas de reciclagem.
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Feito por MatyBuda
POLITIZAÇÃO EM CONFLITOS ASSIMÉTRICOS
Liliana Edith Ferrari - Cláudia Iris Bazán (2014)
Resumo:
1. INTRODUÇÃO
Neste artigo, aprofundamo-nos nas dinâmicas de politização e ação política de grupos em conflito, em contraposição às estruturas
políticas convencionais. Concentramos nossa análise em dois casos significativos: a empresa recuperada IMPA em Buenos Aires e
a cooperativa CorreCamino formada por ex-cartoneros em Villa Crespo. Esses exemplos se destacam por suas iniciativas de
autogestão e cooperação, que surgiram em resposta a crises econômicas e sociais.
O IMPA, localizado em Almagro, tem sido palco de prolongadas lutas por espaço e reconhecimento, dando origem a projetos
educacionais como o Bacharelado Popular e a Universidade dos Trabalhadores, além da criação do Museu IMPA de Cultura do
Trabalho. Por outro lado, o CorreCamino se dedica à reciclagem de resíduos sólidos, preenchendo um vazio deixado pelas políticas
municipais.
Nossa abordagem metodológica aborda as complexidades éticas e epistemológicas do estudo de movimentos conflituosos,
buscando compreender e ampliar os discursos subjetivos desses grupos. Somos inspirados a entender como essas iniciativas
desafiam e complementam as políticas públicas estabelecidas, explorando novas formas de participação política direta e
alternativa.
Este artigo tem como objetivo descrever esses casos como catalisadores para refletir sobre os diferentes modos de fazer política a
partir de uma perspectiva da psicologia social, destacando a agêncialidade e a resistência desses grupos frente às estruturas
dominantes.
2. MÉTODO
O desenho de nossa pesquisa concentra-se em um estudo de caso múltiplo intencionalmente selecionado, que revela relações
sociais assimétricas marcadas por desigualdades econômicas, culturais e políticas. Utilizamos uma abordagem qualitativa com
técnicas como entrevistas participativas e observações etnográficas no âmbito da Pesquisa Ação Participativa (PAR),
complementada pela análise documental. Nossa análise abrange tanto o conteúdo quanto o discurso, buscando não apenas
estudar, mas também participar e engajar-se em uma práxis reflexivo-ação-reflexiva, orientada para a transformação social.
Nosso objetivo é destacar as práticas inovadoras de movimentos que resistem a condições sociais desfavorecidas, analisando
aspectos como ação política, representatividade e potencial emancipatório dos casos estudados em seus contextos políticos e
econômicos.
3. MINORIAS ACTIVAS E A SUA FORMA DE ACÇÃO POLÍTICA
Nesta seção, exploramos os conceitos e teorias desenvolvidos por Moscovici e sua equipe de pesquisa sobre a dinâmica social da
estabilidade-transformação-inovação, focalizando sua concepção de funcionamento social e a teoria das minorias ativas. Moscovici
analisa como as normas sociais interagem com o consenso e o conflito, propondo uma visão de ação política onde as minorias
desempenham um papel crucial. Essa abordagem não apenas caracteriza as complexas sociedades democráticas de sua época,
mas também aborda os processos de reconhecimento e desconhecimento das diferenças.
Para refletir sobre a ação política contemporânea a partir da psicologia social, adotamos o desenvolvimento de Moscovici em
termos de mudança e estabilidade social. Destacamos seu modelo dualista que combina o Funcionalismo e o Modelo Genético,
complementares em alguns aspectos e exclusivos em outros, para entender como minorias ativas impulsionam a transformação
por meio da consistência interna e de sua capacidade de desafiar as normas estabelecidas.
O modelo de Moscovici também examina a relação entre consenso e conflito, argumentando que tanto maiorias quanto minorias
devem negociar concessões para chegar a acordos e reduzir conflitos. No entanto, minorias contranômicas, que desafiam
radicalmente as normas sociais, podem ser excluídas desse processo político, ao contrário das minorias ativas que buscam expandir
a cidadania e os direitos para grupos marginalizados.
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Feito por MatyBuda
, Historicamente, os casos que estudamos surgiram de crises estruturais e econômicas, como a Cooperativa IMPA, afetada pelo
declínio do mercado de trabalho e fechamento de fábricas, e a Cooperativa El CorreCamino, formada por pessoas socialmente
excluídas que buscam se integrar por meio da reciclagem. Esses grupos enfrentam desafios comuns de exclusão e vulnerabilidade,
mas também demonstram resiliência ao reconstruir espaços de trabalho e comunitários que transcendem suas condições
desfavorecidas.
3.1. QUAL A REGRA A SER PRORROGADA EM CADA CASO?
Nos últimos 15 anos, o IMPA enfrentou o desafio fundamental relacionado à propriedade privada e sua vinculação ao direito ao
trabalho. Sua luta pelo destino e uso da propriedade entrou em conflito com os interesses de vários governos da Cidade de Buenos
Aires e as expectativas dos trabalhadores. Por outro lado, a El CorreCamino enfrenta o desafio de operar como uma cooperativa
autônoma na reciclagem de resíduos, em contraste com o papel intermediário atribuído pelo governo aos cartoneros na coleta de
resíduos não contratada.
Ambos os processos geraram críticas aos sucessivos governos da Cidade, mas também fortaleceram o diálogo com a comunidade
local e múltiplas instâncias sociais. O IMPA tem utilizado estratégias que desafiam a legalidade atual das falências de empresas e
tem enfatizado a identidade de seus trabalhadores para buscar consensos. Além disso, desenvolveu projetos educacionais e
culturais significativos, como o bacharelado popular, a Universidade dos Trabalhadores e o Museu IMPA da Cultura do Trabalho.
Quanto ao El CorreCamino, seus membros, liderados por seu presidente, transformaram sua identidade de cartoneros em
"promotores ambientais", buscando reconhecimento para estabelecer centros de reciclagem que não dependam de subsídios ou
empregos assistenciais. Eles estabeleceram alianças com a comunidade local e outras instituições do bairro para promover práticas
de reciclagem e conscientização ambiental através de vários meios, como rádios, palestras em escolas e seminários universitários.
Ambos os casos compartilham uma oposição às políticas tradicionais de assistência social, embora com abordagens diferentes: o
IMPA enfatiza a integração por meio da seguridade social universalista, enquanto El CorreCamino inclina-se para a autogestão
coletiva e desreguladora.
3.2. EM QUE MEDIDA O CONSENSO RELUTA EM TAL TRANSFORMAÇÃO?
No contexto de consensos relutantes, é crucial analisar historicamente como cada um desses grupos vivenciou a sociedade antes
da crise e expulsão dos anos 1990. O IMPA reflete as vicissitudes típicas da classe trabalhadora argentina, desafiando o desemprego
assistido ao redefinir sua tradição operária. Sua luta é profundamente pessoal e ligada à perda da dignidade, buscando ser
reconhecida como uma opção legítima e única no sistema.
Por outro lado, El CorreCamino busca regular identidades e práticas em um empreendimento coletivo, enfatizando sua inclusão e
aceitação pela função social que desempenham. Eles não buscam o consenso prévio que os define como marginais e perigosos,
mas se distanciam de suas histórias passadas para se concentrar em seu serviço atual à comunidade. Esse processo de construção
da coerência se manifesta em seu lema de "reciclar-nos primeiro", destacando sua transformação e compromisso com uma nova
identidade.
4. A AÇÃO POLÍTICA A PARTIR DA TEORIA DA REPRESENTAÇÃO
Nas últimas décadas do século passado, houve um crescente reconhecimento do declínio dos sistemas representativos, o que
abriu caminho para novas concepções políticas e linguísticas no quadro pós-moderno. Essa abordagem questiona ideias
tradicionais de política e enfatiza a construção discursiva da realidade e das identidades sociais. Essa transformação influenciou
teorias como a de Laclau e Mouffe (1987), que exploram a politização das ações sociais e a criação de sujeitos por meio de relações
políticas dinâmicas.
A teoria da representação, enraizada na concepção moderna de política, tem sido fundamental para compreender como discursos
e práticas constroem e mantêm ordens sociais. No entanto, o pensamento pós-moderno tem desafiado essa ideia ao questionar a
existência de uma realidade objetiva fora do discurso, promovendo a ideia de que o social é um efeito de práticas políticas e
discursivas.
O IMPA tem exemplificado a politização de diferentes formas por meio de suas ações, destacando a criação de um Museu como
forma de narrar a história de seus trabalhadores a partir de sua própria perspectiva, desafiando interpretações externas. Além
disso, promoveram legislação que protege a desapropriação de empresas recuperadas, ao mesmo tempo em que rejeitam a
propriedade privada em favor do uso comunitário e educativo do espaço. Em contrapartida, El CorreCamino busca se integrar à
comunidade por meio da legalidade estabelecida, valendo-se de leis como a Lixo Zero para legitimar suas práticas de reciclagem.
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Feito por MatyBuda