REPRESENTAÇÃO SOCIAL:
FENÔMENOS, CONCEITO E TEORIA
Denise Jodelet (1986)
Resumo:
INTRODUÇÃO
Representação social é um termo que encontramos hoje em todas as ciências sociais, muito depois de Serge Moscovici (1961) ter
retomado esse "conceito esquecido" de Durkheim. Não só designa múltiplos fenômenos observados e estudados em vários níveis
de complexidade, tanto individual quanto coletivo, psicológico e social, mas também constitui uma nova unidade de abordagem,
fecunda para a psicologia social e promissora para outras ciências sociais.
Nos últimos vinte anos, um campo de pesquisa se estabeleceu em torno desse conceito, com seus objetos específicos e referencial
teórico. Na ciência, muitas vezes um conceito aparece primeiro e define o que é, como o átomo da matéria ou o gene hereditário.
Em seguida, observa-se sua estrutura e função, o que exige o desenvolvimento de uma teoria, mesmo que rudimentar. Esse
movimento pode ser observado no campo da representação social, onde a reflexão inicial tende para a teoria.
Historicamente, um conceito pode ser estabelecido em uma ciência e sua teoria desenvolvida em outra. A noção de gene nasceu
na genética, mas sua teoria foi elaborada na biologia molecular. Da mesma forma, o conceito de representação social surgiu na
sociologia, onde teve um longo eclipse, mas sua teoria foi delineada na psicologia social por Moscovici (1961, 1976), após um
desvio para a psicologia infantil com Piaget (1926).
Partindo da noção de representação social, procuraremos apresentar as principais linhas dessa teoria, ilustrando a variedade de
fenômenos com os quais ela se relaciona por meio de alguns exemplos.
A. DOS FENÔMENOS REPRESENTATIVOS À NOÇÃO DE REPRESENTAÇÃO SOCIAL
Em uma situação experimental (J. C. Abric, 1971), vários grupos de sujeitos devem realizar dois tipos de tarefas, cada uma exigindo
uma estrutura de comunicação diferente: a tarefa de resolução de problemas requer uma estrutura hierárquica, enquanto a tarefa
de criatividade requer uma estrutura não hierárquica. Nessa experiência, o simples fato de o experimentador definir a tarefa de
forma congruente ou não com sua natureza (por exemplo, sugerindo que a tarefa é sobre resolver um problema quando, na
verdade, é um teste de criatividade, e vice-versa) é suficiente para afetar o desempenho dos grupos e envolver diferentes
procedimentos cognitivos e formas de comunicação.
Os sujeitos interpretam e compreendem a situação de forma diferente e não se comportam da mesma forma diante de um
procedimento idêntico. Seu desempenho é maior quando sua representação é consistente com o exercício que são obrigados a
realizar e menor quando não é. Os sujeitos são organizados de acordo com sua representação: hierarquicamente quando a tarefa
de criatividade é percebida como resolução de problemas, e não hierarquicamente quando a tarefa de resolução de problemas é
percebida como tarefa de criatividade. Diante de uma tarefa de criatividade apresentada como resolução de problemas, utilizam
processos cognitivos adaptados a esse tipo de teste, mostrando maior controle da produção, porém com menor riqueza e
originalidade.
A representação de um grupo sobre o que ele deve fazer define metas e procedimentos específicos para seus membros. Aqui
descobrimos uma primeira forma de representação social: a elaboração, por uma coletividade, sob indução social, de uma
concepção da tarefa que não leva em conta a realidade de sua estrutura funcional. Essa representação tem impacto direto no
comportamento social e na organização do grupo, modificando o funcionamento cognitivo.
A NOÇÃO DE REPRESENTAÇÃO SOCIAL
As representações sociais se manifestam de várias formas, desde imagens que condensam significados até sistemas de referência
que nos permitem interpretar o que está acontecendo ao nosso redor. Eles também incluem categorias que nos ajudam a classificar
circunstâncias, fenômenos e pessoas, bem como teorias que nos permitem estabelecer fatos sobre eles. Quando consideradas
dentro da realidade concreta de nossa vida social, as representações sociais muitas vezes englobam todos esses aspectos ao
mesmo tempo.
Olhar desde o laboratório até contextos sociais ou históricos, e desde dados coletados por meio de procedimentos codificados até
a análise de discursos institucionais ou espontâneos, é sempre uma forma de interpretar e pensar sobre nossa realidade cotidiana,
1
Feito por MatyBuda
, uma forma de conhecimento social. Esse conhecimento é resultado da atividade mental de indivíduos e grupos de se posicionarem
em relação a situações, eventos, objetos e comunicações que os afetam. As influências sociais através do contexto concreto,
comunicação, bagagem cultural e códigos, valores e ideologias relacionados a posições sociais e pertences específicos.
A noção de representação social situa-se no ponto em que o psicológico e o social se cruzam. Refere-se a como nós, como sujeitos
sociais, apreendemos os acontecimentos da vida cotidiana, as características do nosso ambiente e as informações que nele
circulam. Esse conhecimento "espontâneo" ou "ingênuo", que contrasta com o conhecimento científico, constitui-se a partir de
nossas experiências, informações, saberes e modelos de pensamento que recebemos e transmitimos por meio da tradição, da
educação e da comunicação social. É um conhecimento socialmente elaborado e compartilhado, que tenta dominar nosso
ambiente, compreender e explicar os fatos e ideias de nosso universo de vida, e agir com e sobre outras pessoas.
Esse conhecimento prático, ao dar sentido aos acontecimentos e atos que nos são habituais, participa da construção social de
nossa realidade. Segundo S. Moscovici, esse conhecimento constitui o eixo central de uma psicologia do conhecimento,
diferenciando-se de outros produtos mentais sociais como a ciência, o mito, a religião e a ideologia por seus modos de elaboração
e funcionamento em sociedades caracterizadas pelo pluralismo de doutrinas e ideias, pelo isolamento da ciência e pela mobilidade
social. No entanto, seu parentesco não vai muito longe com objetos parciais como opiniões, atitudes, estereótipos e imagens que,
na psicologia social, são reduzidos a simples disposições de resposta.
O conceito de representação social designa uma forma específica de conhecimento, o conhecimento do senso comum, cujos
conteúdos refletem processos geradores e funcionais socialmente caracterizados. Em sentido amplo, designa uma forma de
pensamento social, uma modalidade de pensamento prático orientada para a comunicação, compreensão e domínio do ambiente
social, material e ideal. Tem características específicas em termos de organização de conteúdo, operações mentais e lógica. A
caracterização social dos conteúdos ou processos de representação refere-se às condições e contextos em que surgem, às
comunicações por meio das quais circulam e às funções que cumprem na interação com o mundo e com os outros.
Com essa definição em mente, podemos abordar a maneira pela qual esses objetos assim definidos serão abordados.
B. ELEMENTOS PARA DELIMITAR A NOÇÃO DE REPRESENTAÇÃO SOCIAL
Dos exemplos que demos podemos concluir dois pontos essenciais. Primeiro, a representação social é definida pelo seu conteúdo,
que pode incluir informações, imagens, opiniões e atitudes, e está sempre relacionada a um objeto específico, como um trabalho,
um evento econômico ou uma figura social. Em segundo lugar, a representação social é sempre de um sujeito (indivíduo, família,
grupo, classe) em relação a outro sujeito, e é influenciada pela posição que os sujeitos ocupam na sociedade, na economia e na
cultura.
É fundamental lembrar que toda representação social é uma representação de algo e de alguém. Não é uma duplicata do real ou
do ideal, nem uma parte subjetiva do objeto ou uma parte objetiva do sujeito. É o processo pelo qual a relação entre eles é
estabelecida.
DO FATO DA REPRESENTAÇÃO...
O ato de representar é fundamental para a compreensão da representação social. Representar é um ato de pensamento no qual
um sujeito se relaciona com um objeto. Esse ato tem dois aspectos fundamentais: substituir algo em nossa mente e tornar algo
ausente presente em nossa consciência. Nesse sentido, a representação é tanto o símbolo ou signo de algo quanto a reprodução
mental de outra coisa.
Usando metáforas teatrais e políticas, podemos compreender melhor a representação social. No teatro, os atores fazem o presente
invisível, como o destino ou o amor. Na política, os representantes agem em nome dos outros, adquirindo autonomia e poder
criativo. Da mesma forma, a representação mental e social não apenas simboliza algo ausente, mas também pode substituir o
presente e carrega uma parte de interpretação e criação.
Portanto, a representação social não é uma simples reprodução, mas uma construção de caráter significativo, criativo e autônomo.
Ao analisar o ato de representar, identificamos cinco características-chave da representação social:
1. Representa sempre um objeto: Toda representação social está ligada a algo específico, seja uma figura, um acontecimento ou
uma ideia.
2. Tem o caráter de uma imagem: a representação combina o sensível com a ideia, a percepção com o conceito.
3. Tem um caráter simbólico e significativo: toda figura de uma representação corresponde a um significado e vice-versa.
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Feito por MatyBuda
FENÔMENOS, CONCEITO E TEORIA
Denise Jodelet (1986)
Resumo:
INTRODUÇÃO
Representação social é um termo que encontramos hoje em todas as ciências sociais, muito depois de Serge Moscovici (1961) ter
retomado esse "conceito esquecido" de Durkheim. Não só designa múltiplos fenômenos observados e estudados em vários níveis
de complexidade, tanto individual quanto coletivo, psicológico e social, mas também constitui uma nova unidade de abordagem,
fecunda para a psicologia social e promissora para outras ciências sociais.
Nos últimos vinte anos, um campo de pesquisa se estabeleceu em torno desse conceito, com seus objetos específicos e referencial
teórico. Na ciência, muitas vezes um conceito aparece primeiro e define o que é, como o átomo da matéria ou o gene hereditário.
Em seguida, observa-se sua estrutura e função, o que exige o desenvolvimento de uma teoria, mesmo que rudimentar. Esse
movimento pode ser observado no campo da representação social, onde a reflexão inicial tende para a teoria.
Historicamente, um conceito pode ser estabelecido em uma ciência e sua teoria desenvolvida em outra. A noção de gene nasceu
na genética, mas sua teoria foi elaborada na biologia molecular. Da mesma forma, o conceito de representação social surgiu na
sociologia, onde teve um longo eclipse, mas sua teoria foi delineada na psicologia social por Moscovici (1961, 1976), após um
desvio para a psicologia infantil com Piaget (1926).
Partindo da noção de representação social, procuraremos apresentar as principais linhas dessa teoria, ilustrando a variedade de
fenômenos com os quais ela se relaciona por meio de alguns exemplos.
A. DOS FENÔMENOS REPRESENTATIVOS À NOÇÃO DE REPRESENTAÇÃO SOCIAL
Em uma situação experimental (J. C. Abric, 1971), vários grupos de sujeitos devem realizar dois tipos de tarefas, cada uma exigindo
uma estrutura de comunicação diferente: a tarefa de resolução de problemas requer uma estrutura hierárquica, enquanto a tarefa
de criatividade requer uma estrutura não hierárquica. Nessa experiência, o simples fato de o experimentador definir a tarefa de
forma congruente ou não com sua natureza (por exemplo, sugerindo que a tarefa é sobre resolver um problema quando, na
verdade, é um teste de criatividade, e vice-versa) é suficiente para afetar o desempenho dos grupos e envolver diferentes
procedimentos cognitivos e formas de comunicação.
Os sujeitos interpretam e compreendem a situação de forma diferente e não se comportam da mesma forma diante de um
procedimento idêntico. Seu desempenho é maior quando sua representação é consistente com o exercício que são obrigados a
realizar e menor quando não é. Os sujeitos são organizados de acordo com sua representação: hierarquicamente quando a tarefa
de criatividade é percebida como resolução de problemas, e não hierarquicamente quando a tarefa de resolução de problemas é
percebida como tarefa de criatividade. Diante de uma tarefa de criatividade apresentada como resolução de problemas, utilizam
processos cognitivos adaptados a esse tipo de teste, mostrando maior controle da produção, porém com menor riqueza e
originalidade.
A representação de um grupo sobre o que ele deve fazer define metas e procedimentos específicos para seus membros. Aqui
descobrimos uma primeira forma de representação social: a elaboração, por uma coletividade, sob indução social, de uma
concepção da tarefa que não leva em conta a realidade de sua estrutura funcional. Essa representação tem impacto direto no
comportamento social e na organização do grupo, modificando o funcionamento cognitivo.
A NOÇÃO DE REPRESENTAÇÃO SOCIAL
As representações sociais se manifestam de várias formas, desde imagens que condensam significados até sistemas de referência
que nos permitem interpretar o que está acontecendo ao nosso redor. Eles também incluem categorias que nos ajudam a classificar
circunstâncias, fenômenos e pessoas, bem como teorias que nos permitem estabelecer fatos sobre eles. Quando consideradas
dentro da realidade concreta de nossa vida social, as representações sociais muitas vezes englobam todos esses aspectos ao
mesmo tempo.
Olhar desde o laboratório até contextos sociais ou históricos, e desde dados coletados por meio de procedimentos codificados até
a análise de discursos institucionais ou espontâneos, é sempre uma forma de interpretar e pensar sobre nossa realidade cotidiana,
1
Feito por MatyBuda
, uma forma de conhecimento social. Esse conhecimento é resultado da atividade mental de indivíduos e grupos de se posicionarem
em relação a situações, eventos, objetos e comunicações que os afetam. As influências sociais através do contexto concreto,
comunicação, bagagem cultural e códigos, valores e ideologias relacionados a posições sociais e pertences específicos.
A noção de representação social situa-se no ponto em que o psicológico e o social se cruzam. Refere-se a como nós, como sujeitos
sociais, apreendemos os acontecimentos da vida cotidiana, as características do nosso ambiente e as informações que nele
circulam. Esse conhecimento "espontâneo" ou "ingênuo", que contrasta com o conhecimento científico, constitui-se a partir de
nossas experiências, informações, saberes e modelos de pensamento que recebemos e transmitimos por meio da tradição, da
educação e da comunicação social. É um conhecimento socialmente elaborado e compartilhado, que tenta dominar nosso
ambiente, compreender e explicar os fatos e ideias de nosso universo de vida, e agir com e sobre outras pessoas.
Esse conhecimento prático, ao dar sentido aos acontecimentos e atos que nos são habituais, participa da construção social de
nossa realidade. Segundo S. Moscovici, esse conhecimento constitui o eixo central de uma psicologia do conhecimento,
diferenciando-se de outros produtos mentais sociais como a ciência, o mito, a religião e a ideologia por seus modos de elaboração
e funcionamento em sociedades caracterizadas pelo pluralismo de doutrinas e ideias, pelo isolamento da ciência e pela mobilidade
social. No entanto, seu parentesco não vai muito longe com objetos parciais como opiniões, atitudes, estereótipos e imagens que,
na psicologia social, são reduzidos a simples disposições de resposta.
O conceito de representação social designa uma forma específica de conhecimento, o conhecimento do senso comum, cujos
conteúdos refletem processos geradores e funcionais socialmente caracterizados. Em sentido amplo, designa uma forma de
pensamento social, uma modalidade de pensamento prático orientada para a comunicação, compreensão e domínio do ambiente
social, material e ideal. Tem características específicas em termos de organização de conteúdo, operações mentais e lógica. A
caracterização social dos conteúdos ou processos de representação refere-se às condições e contextos em que surgem, às
comunicações por meio das quais circulam e às funções que cumprem na interação com o mundo e com os outros.
Com essa definição em mente, podemos abordar a maneira pela qual esses objetos assim definidos serão abordados.
B. ELEMENTOS PARA DELIMITAR A NOÇÃO DE REPRESENTAÇÃO SOCIAL
Dos exemplos que demos podemos concluir dois pontos essenciais. Primeiro, a representação social é definida pelo seu conteúdo,
que pode incluir informações, imagens, opiniões e atitudes, e está sempre relacionada a um objeto específico, como um trabalho,
um evento econômico ou uma figura social. Em segundo lugar, a representação social é sempre de um sujeito (indivíduo, família,
grupo, classe) em relação a outro sujeito, e é influenciada pela posição que os sujeitos ocupam na sociedade, na economia e na
cultura.
É fundamental lembrar que toda representação social é uma representação de algo e de alguém. Não é uma duplicata do real ou
do ideal, nem uma parte subjetiva do objeto ou uma parte objetiva do sujeito. É o processo pelo qual a relação entre eles é
estabelecida.
DO FATO DA REPRESENTAÇÃO...
O ato de representar é fundamental para a compreensão da representação social. Representar é um ato de pensamento no qual
um sujeito se relaciona com um objeto. Esse ato tem dois aspectos fundamentais: substituir algo em nossa mente e tornar algo
ausente presente em nossa consciência. Nesse sentido, a representação é tanto o símbolo ou signo de algo quanto a reprodução
mental de outra coisa.
Usando metáforas teatrais e políticas, podemos compreender melhor a representação social. No teatro, os atores fazem o presente
invisível, como o destino ou o amor. Na política, os representantes agem em nome dos outros, adquirindo autonomia e poder
criativo. Da mesma forma, a representação mental e social não apenas simboliza algo ausente, mas também pode substituir o
presente e carrega uma parte de interpretação e criação.
Portanto, a representação social não é uma simples reprodução, mas uma construção de caráter significativo, criativo e autônomo.
Ao analisar o ato de representar, identificamos cinco características-chave da representação social:
1. Representa sempre um objeto: Toda representação social está ligada a algo específico, seja uma figura, um acontecimento ou
uma ideia.
2. Tem o caráter de uma imagem: a representação combina o sensível com a ideia, a percepção com o conceito.
3. Tem um caráter simbólico e significativo: toda figura de uma representação corresponde a um significado e vice-versa.
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Feito por MatyBuda