PSICOLOGIA SOCIAL: RELAÇÃO ENTRE
INDIVÍDUO E SOCIEDADE
Juan A. Pérez (1994)
Resumo:
Uma maneira comum de delimitar o campo de estudo da psicologia social é focar na análise da relação entre o indivíduo e a
sociedade. Nossa tarefa seria descrever o processo de socialização do indivíduo e como ele pode influenciar a produção de
ideologias, valores, normas e a organização da sociedade. Embora pareça evidente que o indivíduo e a sociedade são
interdependentes, grande parte da psicologia social atual tende a ser reducionista, seja do ponto de vista psicológico ou
sociológico.
A partir da abordagem psicológica, a interação social é reduzida a respostas simples a estímulos, sem considerar a complexidade
do indivíduo e as interações construtivas. Por outro lado, o reducionismo sociológico nega a autonomia do indivíduo, considerando-
o mero produto da sociedade. Em ambos os casos, a psicologia social torna-se um apêndice da psicologia ou sociologia, refinando
e descobrindo exceções às leis gerais dessas disciplinas.
Essas formas de definir o objeto da psicologia social o relegam ao papel de intermediário entre a psicologia e a sociologia, sem
compreender plenamente sua especificidade como disciplina. Confronta-se, assim, com a dicotomia entre o individual e o social,
tornando-se uma "disciplina da terra de ninguém".
Esses debates reducionistas têm sido persistentes ao longo da história da psicologia social. O problema está na dificuldade de
definir a interação e explicar por que ela deveria ser um princípio organizador específico dessa disciplina.
INTERAÇÃO: UM OU VÁRIOS?
A noção de interação é amplamente aceita e considerada multidisciplinar. Os psicólogos assumem que os processos psicológicos
são influenciados pelo contexto, enquanto os sociólogos reconhecem que conceitos macrossociais como classe e estrutura podem
ser complementados por abordagens mais micro. No entanto, a controvérsia surge devido aos múltiplos significados do termo
interação, pelo menos três bem diferentes.
INTERAÇÃO COMO RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO
A primeira perspectiva que exploramos considera a interação como uma causalidade unidirecional ou troca de informações.
Segundo Maisonneuve (1968), a interação ocorre quando uma ação de um sujeito A atua como estímulo para uma resposta em
outro sujeito B e vice-versa.
Essa concepção baseia-se em um loop causal onde uma parte é ativa (o emissor, como sujeito A) e a outra é passiva (o receptor,
como sujeito B). No contexto individual-sociedade, coloca-se a questão de quem influencia quem: do ponto de vista psicológico,
argumenta-se que o indivíduo é moldado pelo seu funcionamento psicológico, enquanto a partir de abordagens sociológicas
argumenta-se que o indivíduo é um produto da sociedade.
Essa perspectiva sugere que há interação quando há um emissor e um receptor, mas ao invés de interação, poderia ser considerada
uma causalidade, onde um polo é a causa do outro, que é simplesmente uma cópia ou produto do primeiro.
Nesse sentido, se ainda é chamado de interação, deve-se especificar que é unidirecional por natureza.
INTERAÇÃO COMO AFILIAÇÃO
A segunda perspectiva afirma que a psicologia estuda o indivíduo, a psicologia social se concentra na interação entre indivíduos
(uma díade ou um pequeno grupo) e a sociologia analisa as massas. Nessa perspectiva, entende-se também que a psicologia social
examina como os indivíduos interagem uns com os outros: eles se unem para alcançar objetivos e satisfazer necessidades que não
poderiam fazer sozinhos. Baseia-se na premissa de uma tendência básica dos seres humanos para a filiação, e a psicologia social
descreve como essas tendências se manifestam, suas formas e as consequências para a sociedade.
Nessa perspectiva, a interação reduz-se aos seus aspectos mais tangíveis, considerando-se que ocorre quando vários indivíduos
estão no mesmo espaço e tempo e têm necessidades mútuas. Isso implica que, segundo essa visão, os indivíduos podem viver fora
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Feito por MatyBuda
, do condicionamento social quando estão fisicamente isolados, e que dispensam as normas sociais quando interagem com outros
indivíduos. Em suma, os efeitos simbólicos e duradouros da interação social são minimizados, levando a um claro reducionismo.
O OBJETO DE ESTUDO DA PSICOLOGIA SOCIAL
As diversas formas de delimitação do objeto de estudo da psicologia social e as interpretações reducionistas a elas associadas têm
gerado certa confusão no interior da disciplina. Foi salientado que ainda não foi possível estabelecer um quadro claro e uniforme
que defina os critérios e os problemas específicos que lhe dizem respeito.
Essa crítica e a busca por soluções não são novas. Uma contribuição significativa foi feita por Kurt Lewin em seu trabalho "Field
Theory and Experiment in Social Psychology" em 1939. Lewin reconheceu a ampla gama de tópicos que a psicologia social aborda,
desde questões de valores e ideologias até aspectos físicos, sociológicos e psicológicos. No entanto, defendeu que é possível
integrar estes vários problemas a um único nível sem perder de vista as suas características particulares.
O autor propôs considerar a ciência como um reino de problemas e não de materiais. Isso envolve o uso de diferentes universos
de discurso e leis para abordar os vários problemas que surgem na psicologia social. A chave é entender que todos esses universos
de discurso se referem ao mesmo universo de material, ou seja, à realidade que está sendo estudada.
Em suma, Lewin defendeu a liberdade da psicologia social para utilizar os construtos teóricos e metodológicos que melhor
contribuam para a compreensão de seus problemas. Isso implica não sentir a obrigação de adotar construtos de outras disciplinas
simplesmente por razões filosóficas ou metodológicas. Em vez disso, defende uma integração coerente e consistente das várias
abordagens dentro da psicologia social, permitindo assim uma compreensão mais completa e holística dos fenômenos sociais e
psicológicos que estuda.
A INTERAÇÃO COMO UNIDADE PSICOSSOCIAL
A aspiração de Kurt Lewin de integrar os diversos problemas abordados pela psicologia social pode encontrar respaldo em uma
nova concepção da relação entre indivíduo e sociedade, caracterizada por uma bidirecionalidade e não por uma
unidirecionalidade. Segundo De Montmollin (1977), a interação social não se limita a ser uma "resposta a", mas também uma
"antecipação de". De acordo com essa abordagem, a interação não é simplesmente a soma de suas partes, mas é integrativa e cria
novos padrões de comportamento.
Considera-se que os constantes ajustes e desequilíbrios entre a sociedade e o indivíduo dão origem a um acoplamento recíproco,
marcado por conflitos e movimentos dialéticos entre as partes. Essa abordagem enfatiza que quando a sociedade influencia o
indivíduo, o indivíduo também influencia a sociedade, e vice-versa. É esse acoplamento recíproco que, do nosso ponto de vista,
define o objeto de estudo mais específico da psicologia social.
Essa perspectiva também explica por que o desenvolvimento da psicologia social coincide com o reconhecimento da existência de
dois processos: diversidade e uniformidade social. Surge como resposta à necessidade de estudar as repercussões dos conflitos
gerados pela diversidade de pressões sociais e pelas oposições de normas e valores que concorrem em um mesmo ambiente
sociocultural.
Além disso, observa-se que o surgimento da psicologia social está associado a momentos de grande efervescência social, como
conflitos intergrupais, preconceitos e crises de gerações. Esses fenômenos sociais, juntamente com conflitos globais como a
Segunda Guerra Mundial, impulsionaram o desenvolvimento da psicologia social por volta da década de 1950.
Em síntese, a psicologia social se depara com a tarefa de abordar problemas sociais que possuem uma geografia, história e aspectos
culturais específicos. Isso ressalta a importância de compreender as complexas interações entre indivíduo e sociedade em
contextos variados e dinâmicos.
UMA ILUSTRAÇÃO DA INTERAÇÃO SOCIAL CONSTRUTIVISTA
Há fenômenos que não podem ser explicados apenas por fatores psicológicos ou sociológicos, mas resultam da interação entre o
indivíduo e o social, tendo autonomia própria que simultaneamente os reproduz e transforma.
Para ilustrar esse conceito construtivista de interação social, consideramos a análise da agressão de Zillmann e Bryant (1974) com
base na teoria de dois componentes da emoção de Schachter e Singer (1962). Essa teoria destaca a importância de considerar não
apenas a ativação interna e o contexto externo, mas também a representação do próprio estado psicológico, como um terceiro
fator na interação.
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Feito por MatyBuda
INDIVÍDUO E SOCIEDADE
Juan A. Pérez (1994)
Resumo:
Uma maneira comum de delimitar o campo de estudo da psicologia social é focar na análise da relação entre o indivíduo e a
sociedade. Nossa tarefa seria descrever o processo de socialização do indivíduo e como ele pode influenciar a produção de
ideologias, valores, normas e a organização da sociedade. Embora pareça evidente que o indivíduo e a sociedade são
interdependentes, grande parte da psicologia social atual tende a ser reducionista, seja do ponto de vista psicológico ou
sociológico.
A partir da abordagem psicológica, a interação social é reduzida a respostas simples a estímulos, sem considerar a complexidade
do indivíduo e as interações construtivas. Por outro lado, o reducionismo sociológico nega a autonomia do indivíduo, considerando-
o mero produto da sociedade. Em ambos os casos, a psicologia social torna-se um apêndice da psicologia ou sociologia, refinando
e descobrindo exceções às leis gerais dessas disciplinas.
Essas formas de definir o objeto da psicologia social o relegam ao papel de intermediário entre a psicologia e a sociologia, sem
compreender plenamente sua especificidade como disciplina. Confronta-se, assim, com a dicotomia entre o individual e o social,
tornando-se uma "disciplina da terra de ninguém".
Esses debates reducionistas têm sido persistentes ao longo da história da psicologia social. O problema está na dificuldade de
definir a interação e explicar por que ela deveria ser um princípio organizador específico dessa disciplina.
INTERAÇÃO: UM OU VÁRIOS?
A noção de interação é amplamente aceita e considerada multidisciplinar. Os psicólogos assumem que os processos psicológicos
são influenciados pelo contexto, enquanto os sociólogos reconhecem que conceitos macrossociais como classe e estrutura podem
ser complementados por abordagens mais micro. No entanto, a controvérsia surge devido aos múltiplos significados do termo
interação, pelo menos três bem diferentes.
INTERAÇÃO COMO RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO
A primeira perspectiva que exploramos considera a interação como uma causalidade unidirecional ou troca de informações.
Segundo Maisonneuve (1968), a interação ocorre quando uma ação de um sujeito A atua como estímulo para uma resposta em
outro sujeito B e vice-versa.
Essa concepção baseia-se em um loop causal onde uma parte é ativa (o emissor, como sujeito A) e a outra é passiva (o receptor,
como sujeito B). No contexto individual-sociedade, coloca-se a questão de quem influencia quem: do ponto de vista psicológico,
argumenta-se que o indivíduo é moldado pelo seu funcionamento psicológico, enquanto a partir de abordagens sociológicas
argumenta-se que o indivíduo é um produto da sociedade.
Essa perspectiva sugere que há interação quando há um emissor e um receptor, mas ao invés de interação, poderia ser considerada
uma causalidade, onde um polo é a causa do outro, que é simplesmente uma cópia ou produto do primeiro.
Nesse sentido, se ainda é chamado de interação, deve-se especificar que é unidirecional por natureza.
INTERAÇÃO COMO AFILIAÇÃO
A segunda perspectiva afirma que a psicologia estuda o indivíduo, a psicologia social se concentra na interação entre indivíduos
(uma díade ou um pequeno grupo) e a sociologia analisa as massas. Nessa perspectiva, entende-se também que a psicologia social
examina como os indivíduos interagem uns com os outros: eles se unem para alcançar objetivos e satisfazer necessidades que não
poderiam fazer sozinhos. Baseia-se na premissa de uma tendência básica dos seres humanos para a filiação, e a psicologia social
descreve como essas tendências se manifestam, suas formas e as consequências para a sociedade.
Nessa perspectiva, a interação reduz-se aos seus aspectos mais tangíveis, considerando-se que ocorre quando vários indivíduos
estão no mesmo espaço e tempo e têm necessidades mútuas. Isso implica que, segundo essa visão, os indivíduos podem viver fora
1
Feito por MatyBuda
, do condicionamento social quando estão fisicamente isolados, e que dispensam as normas sociais quando interagem com outros
indivíduos. Em suma, os efeitos simbólicos e duradouros da interação social são minimizados, levando a um claro reducionismo.
O OBJETO DE ESTUDO DA PSICOLOGIA SOCIAL
As diversas formas de delimitação do objeto de estudo da psicologia social e as interpretações reducionistas a elas associadas têm
gerado certa confusão no interior da disciplina. Foi salientado que ainda não foi possível estabelecer um quadro claro e uniforme
que defina os critérios e os problemas específicos que lhe dizem respeito.
Essa crítica e a busca por soluções não são novas. Uma contribuição significativa foi feita por Kurt Lewin em seu trabalho "Field
Theory and Experiment in Social Psychology" em 1939. Lewin reconheceu a ampla gama de tópicos que a psicologia social aborda,
desde questões de valores e ideologias até aspectos físicos, sociológicos e psicológicos. No entanto, defendeu que é possível
integrar estes vários problemas a um único nível sem perder de vista as suas características particulares.
O autor propôs considerar a ciência como um reino de problemas e não de materiais. Isso envolve o uso de diferentes universos
de discurso e leis para abordar os vários problemas que surgem na psicologia social. A chave é entender que todos esses universos
de discurso se referem ao mesmo universo de material, ou seja, à realidade que está sendo estudada.
Em suma, Lewin defendeu a liberdade da psicologia social para utilizar os construtos teóricos e metodológicos que melhor
contribuam para a compreensão de seus problemas. Isso implica não sentir a obrigação de adotar construtos de outras disciplinas
simplesmente por razões filosóficas ou metodológicas. Em vez disso, defende uma integração coerente e consistente das várias
abordagens dentro da psicologia social, permitindo assim uma compreensão mais completa e holística dos fenômenos sociais e
psicológicos que estuda.
A INTERAÇÃO COMO UNIDADE PSICOSSOCIAL
A aspiração de Kurt Lewin de integrar os diversos problemas abordados pela psicologia social pode encontrar respaldo em uma
nova concepção da relação entre indivíduo e sociedade, caracterizada por uma bidirecionalidade e não por uma
unidirecionalidade. Segundo De Montmollin (1977), a interação social não se limita a ser uma "resposta a", mas também uma
"antecipação de". De acordo com essa abordagem, a interação não é simplesmente a soma de suas partes, mas é integrativa e cria
novos padrões de comportamento.
Considera-se que os constantes ajustes e desequilíbrios entre a sociedade e o indivíduo dão origem a um acoplamento recíproco,
marcado por conflitos e movimentos dialéticos entre as partes. Essa abordagem enfatiza que quando a sociedade influencia o
indivíduo, o indivíduo também influencia a sociedade, e vice-versa. É esse acoplamento recíproco que, do nosso ponto de vista,
define o objeto de estudo mais específico da psicologia social.
Essa perspectiva também explica por que o desenvolvimento da psicologia social coincide com o reconhecimento da existência de
dois processos: diversidade e uniformidade social. Surge como resposta à necessidade de estudar as repercussões dos conflitos
gerados pela diversidade de pressões sociais e pelas oposições de normas e valores que concorrem em um mesmo ambiente
sociocultural.
Além disso, observa-se que o surgimento da psicologia social está associado a momentos de grande efervescência social, como
conflitos intergrupais, preconceitos e crises de gerações. Esses fenômenos sociais, juntamente com conflitos globais como a
Segunda Guerra Mundial, impulsionaram o desenvolvimento da psicologia social por volta da década de 1950.
Em síntese, a psicologia social se depara com a tarefa de abordar problemas sociais que possuem uma geografia, história e aspectos
culturais específicos. Isso ressalta a importância de compreender as complexas interações entre indivíduo e sociedade em
contextos variados e dinâmicos.
UMA ILUSTRAÇÃO DA INTERAÇÃO SOCIAL CONSTRUTIVISTA
Há fenômenos que não podem ser explicados apenas por fatores psicológicos ou sociológicos, mas resultam da interação entre o
indivíduo e o social, tendo autonomia própria que simultaneamente os reproduz e transforma.
Para ilustrar esse conceito construtivista de interação social, consideramos a análise da agressão de Zillmann e Bryant (1974) com
base na teoria de dois componentes da emoção de Schachter e Singer (1962). Essa teoria destaca a importância de considerar não
apenas a ativação interna e o contexto externo, mas também a representação do próprio estado psicológico, como um terceiro
fator na interação.
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Feito por MatyBuda